Começa aqui o Voto-vista, coluna dedicada a refletir sobre o papel do Direito na vida pública brasileira — não como abstração técnica, mas como instrumento de poder, privilégio, confronto e, por vezes, silêncio cúmplice. O ponto de partida não poderia ser neutro. Optamos por Kakay porque ele representa um incômodo necessário. É figura que desafia o formalismo excessivo, desorganiza o ritual da toga silenciosa e recoloca a advocacia no centro do debate democrático. Goste-se ou não de seu estilo, há nele algo raro: disposição para o enfrentamento.
E, em tempos de institucionalidades vacilantes, quem fala alto pode não ser o problema — mas o alerta.
E não poderia começar esse texto de outra forma.
“Para ser grande, sê inteiro: nada teu exagera ou exclui.”
Fernando Pessoa talvez não tivesse em mente um advogado criminalista brasileiro ao escrever isso — mas Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, se encaixa no verso como uma luva de veludo.
Mais do que advogado, ele é personagem. Tão conhecido por suas defesas no Supremo quanto por seu gosto por vinhos raros, viagens à Europa, saraus em Brasília e frases de efeito em entrevistas. E se há alguma dúvida sobre o quanto sua figura pública mexe com o imaginário popular, basta abrir o Google: entre os termos mais buscados estão “Kakay honorários”, “Kakay fortuna” e “Kakay bermuda STF”. Ele desperta curiosidade porque é incomum — e incomoda porque fala o que muitos evitam dizer, ainda que às vezes pareça gostar tanto do impacto quanto da ideia.
Da toga ao palco institucional
Kakay, como gosta de lembrar, defendeu ex-presidentes da República, ministros, empresários e artistas. Fez centenas de sustentações no STF. Mas seu maior caso talvez tenha sido ele mesmo. Criou um arquétipo: o advogado que não se esconde nos autos nem nos bastidores. Ele fala, escreve, provoca. E, acima de tudo, cultiva a própria autoridade fora dos fóruns. Não carrega crachá — carrega personagem. E nesse personagem há tanto enfrentamento genuíno quanto cálculo de cena.
Em fevereiro de 2025, sua carta aberta criticando o governo Lula viralizou. Dizia que o presidente estava “isolado, capturado”, que não fazia mais política. Foi criticado pela esquerda, elogiado pela direita e ouvido com respeito por todos. Na entrevista que concedeu logo depois, resumiu: “A crítica institucional é a defesa da institucionalidade.”
Exageros, sim. Contradições, também. Mas omissão, nunca.
Kakay não escapa dos próprios excessos. Em algumas ocasiões, foi acusado de transformar o processo penal em teatro. Em outras, de aparecer mais do que deveria. A frequência com que figura em manchetes e rodas de conversa pode soar calculada. E talvez seja mesmo. Mas nunca é vazia.
Há quem veja nele um protagonista necessário da democracia — e quem o acuse de ser apenas um showman de toga. As duas leituras não se anulam. Sua eloquência, por vezes magnética, pode também desviar o foco do essencial: o cliente, o processo, a prova. E ainda que seu estilo provoque, encante ou irrite, é inegável que ele transforma cada caso em arena pública, onde o direito disputa espaço com a narrativa.
“O personagem Kakay às vezes incomoda até o advogado Kakay.” A frase, ainda que não dita por ele, poderia muito bem resumir sua autocrítica velada. Ele transborda — afetivamente, verbalmente, esteticamente. Mas esse transbordamento nunca comprometeu sua ética nem sua relevância. Compromete, quando muito, o conforto de quem prefere a toga calada.
A toga que pensa, forma e reverbera
No escritório que leva seu nome — Almeida, Castro, Castro e Turbay —, Kakay atua ao lado de sócios que compartilham da mesma inquietação institucional. Roberta Cristina Ribeiro, Marcelo Turbay Freiria, Liliane de Carvalho Gabriel, Álvaro Guilherme Chaves e Amanda Almeida formam um núcleo jurídico que vai além da técnica: encaram a advocacia como espaço de posicionamento e construção democrática.
Juntos, têm protagonizado ações relevantes no STF e no STJ, em pautas que envolvem liberdade de expressão, crime cibernético, garantias constitucionais e defesa do devido processo legal. Um dos exemplos mais emblemáticos foi a atuação no caso Adriana Vilela — acusada, em um processo marcado por distorções, vazamentos seletivos e pressões midiáticas. A defesa feita pelo escritório não apenas desmontou as acusações, como expôs os riscos de um sistema punitivo orientado pelo clamor e não pela prova. Ali, como em tantos outros casos, não se tratava apenas de absolver uma cliente — mas de afirmar um princípio. E isso, no Brasil de hoje, é cada vez mais raro.
A democracia precisa de vozes
Num país em que as instituições hesitam, a tecnocracia se esconde e o legalismo por vezes legitima o arbítrio, a democracia exige mais do que normas — exige coragem vocal. Precisa de vozes que não apenas defendam a Constituição nos autos, mas que a sustentem no debate público, com clareza, intensidade e, se necessário, escândalo. Kakay cumpre esse papel com um protagonismo que desafia convenções. Sua toga não é silenciosa: ela argumenta, provoca, confronta. E isso, num Brasil marcado por pactos de conveniência e silêncios cúmplices, não é excesso — é resistência. Goste-se ou não do estilo, sua presença aponta para algo essencial: o Direito, quando se cala, pode ser cúmplice; quando fala com convicção, pode até soar espalhafatoso — mas é melhor do que o silêncio que embala o autoritarismo.
Há quem ache demais. E é mesmo. Kakay é demais para quem espera sobriedade sem crítica, advocacia sem política, toga sem poesia. Mas num país em que o silêncio institucional abre espaço para o arbítrio, talvez o “demais” seja uma forma de cuidado.
Como escreveu Pessoa, “tudo vale a pena se a alma não é pequena.” E a dele, definitivamente, não é — ainda que às vezes pareça maior do que a sala de audiência.