Mesmo antes do segundo turno, as urnas redesenharam o poder político no país e mostraram que o desafio de Lula vai muito além de derrotar Flávio Bolsonaro
O Brasil ainda não escolheu o próximo presidente, mas uma parte importante desta eleição já terminou. Nela a direita saiu maior.
Não é apenas porque Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno à frente de Lula. Olhar somente para os dois candidatos seria perder o movimento mais profundo revelado pelas urnas.
A direita cresceu no Congresso, conquistou maioria no Senado e colocou o PL no centro do poder político brasileiro.
Lula recebeu mais de 53 milhões de votos. É muita coisa. Continua vivo na disputa e pode perfeitamente vencer o segundo turno. O problema para o presidente está no que aconteceu ao redor dessa votação.
Na Câmara, o PL elegeu 121 deputados e terá a maior bancada. No Senado, chegará a 28 cadeiras. Pelos cálculos, a oposição alinhada ao bolsonarismo terá 45 dos 81 senadores.
Isso muda bastante coisa. Muda a relação de qualquer governo com o Congresso. Muda a disputa pelas presidências das duas Casas.
Muda a composição das comissões e aumenta a pressão sobre o Supremo Tribunal Federal, alvo permanente de uma parcela importante da direita nos últimos anos.
Há também um problema particular para Lula.
O presidente chegou ao primeiro turno com 45,16% dos votos válidos, abaixo dos 48,43% que havia conseguido em 2022. Flávio Bolsonaro terminou na frente, com 47,03%.
Mais importante do que comparar simplesmente uma eleição com outra é perceber que o campo político de Lula não conseguiu conter o avanço do adversário.
A eleição mostrou que o bolsonarismo sobreviveu à ausência de Jair Bolsonaro na urna. Encontrou outro nome para a disputa presidencial e, ao mesmo tempo, conseguiu ampliar sua presença no Legislativo.
Esse talvez seja o dado político mais importante do domingo.
O segundo turno agora decidirá quem ocupará o Palácio do Planalto. Mas não decidirá sozinho quem terá poder no Brasil a partir de 2027.
Se Flávio Bolsonaro vencer, encontrará um Congresso bastante favorável ao seu campo político.
Se Lula vencer, terá pela frente um ambiente muito diferente daquele que encontrou no início do atual mandato. Governará diante de uma oposição numerosa, fortalecida pelas urnas e com capacidade maior de impor sua agenda.
Por isso, reduzir o resultado do primeiro turno à diferença entre Lula e Flávio seria olhar apenas para a fotografia. O filme é maior.
A Presidência continua em disputa. O avanço da direita, não.