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De repente, uma cama
A troca do berço pela cama revela a alegria de ver os filhos crescerem e a saudade de cada fase que fica para trás.
07/10/2026 06h00 Atualizada há 18 horas
Por: Marina Marquez | coluna De Mãe para Mãe

Eram 9h30 quando o marceneiro entrou na minha casa para instalar a cama da minha filha mais nova. Às 14h, quando ele saiu, eu sentei no chão do quarto e fiquei olhando para aquela cama e para tudo o que ela significava.

No último mês, minha filha desfraldou e decidiu que era criança grande. Grande o suficiente para não dormir mais no berço. Grande o suficiente para reivindicar uma cama, mesmo ainda chamando cama de “pama”.

Aquela menina que, até outro dia, falava “cocossauro” no lugar de dinossauro, “biliqueta” para dizer bicicleta e outras palavras que eu queria guardar num pote, decidiu que cresceu. E não é que ela tem razão?

Ela já consegue se vestir sozinha, escovar os dentes sozinha, comer sozinha. Já praticamente nada sozinha na aula de natação, que começou precoce demais para uma mãe que ainda tentava entender quando o bebê tinha virado criança.

Talvez seja isso que confunda tanto a gente.

Não existe um dia exato em que o filho pequeno deixa de ser pequeno. Não é quando acaba o berço. Não é quando desfralda. Não é quando dorme a noite inteira. Não é quando deixa de falar palavras erradas daquele jeito que rasga a gente de amor.

Não é quando começa ou acaba o tal terrible two — até porque, aqui em casa, ele parece ter começado aos seis meses e ainda não mandou aviso de término.

Talvez seja uma soma de pequenos anúncios.

Um dia eles pedem para fazer sozinhos. No outro, recusam a roupa que a gente escolheu. Um dia não querem mais ajuda para subir no sofá. No outro, dizem uma palavra certa que a gente preferia que continuasse errada por mais um tempo.

Um dia o berço sai. No outro, a cama chega. E a gente, que estava ocupada comprando lençol, organizando gaveta e agradecendo a autonomia, percebe que está vivendo uma despedida.

Uma despedida bonita, claro. Crescer é bom. É para isso que a gente cria. Para que consigam, tentem, escolham, façam, caiam e levantem sem precisar da nossa mão o tempo inteiro.

Mas ninguém avisa que cada conquista deles leva embora um pedaço da nossa rotina com aquela versão que não volta mais.

A mãe do bebê que precisava de colo para tudo vai dando lugar à mãe da criança que diz “eu consigo”. A mãe que entendia todas as palavras erradas vai dando lugar à mãe que assiste a linguagem se ajeitar. A mãe do berço vai dando lugar à mãe da cama.

E a gente fica feliz. E fica triste. E sente orgulho. E sente saudade. Tudo ao mesmo tempo, como quase tudo na maternidade.

Naquela manhã, sentada no chão do quarto, eu olhei para a cama nova e pensei que talvez o tempo não passe de repente. Talvez ele passe assim: trocando móveis, corrigindo palavras, alongando pernas, aumentando sapatos, mudando brincadeiras.

Devagar para eles. Rápido demais para nós.

E talvez a maternidade seja exatamente isso: acompanhar de perto alguém crescer enquanto tentamos aprender, sem muito sucesso, a não sofrer por cada versão que fica pelo caminho.

Porque eles crescem.  Mesmo quando ainda dizem “pama”. E talvez seja justamente aí que doa mais.

 

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