A Argentina conseguiu desacelerar a inflação, mas outro número começa a chamar atenção.
A inadimplência das famílias atingiu o maior nível em 16 anos. O problema agora aparece no cartão, no empréstimo e nas contas que vencem antes de o dinheiro chegar.
Dados do Banco Central argentino mostram que a taxa de atraso nos empréstimos das famílias chegou a 12,8% em junho deste ano.
Em um país com pouco mais de 46 milhões de habitantes, um a cada três argentinos enfrenta problemas para liquidar a dívida adquirida com bancos, carteiras digitais, lojas de eletrodomésticos ou agiotas, como aponta a consultoria Analytica.
O economista Juan Manuel Escobar, da consultoria Inteligencia Analytica, descreveu a uma espécie de círculo da dívida. “Tomo dívida para pagar alimentos, para pagar serviços”, afirmou.
Nesse cenário, os empréstimos digitais cresceram rapidamente. Fintechs, carteiras virtuais e outras plataformas passaram a alcançar milhões de clientes.
O número de operações desse segmento saltou de cerca de 500 mil para 10 milhões nos últimos anos. Algumas linhas chegam a cobrar taxas anuais superiores a 130%.
Existe, porém, outra parte dessa fotografia. Mariano Flores Vidal, economista e ex-gerente-geral do Banco Central argentino, lembra que a inadimplência aumentou ao mesmo tempo em que o volume de crédito avançou com força. “A inadimplência cresceu, sim, mas o crédito cresceu muito mais”, ressalta.
Segundo ele, os empréstimos ao setor privado passaram de cerca de 5% do PIB para algo entre 13% e 14%.
Os números, portanto, mostram dois movimentos ao mesmo tempo. Os argentinos passaram a ter mais acesso ao crédito, mas uma parcela crescente encontra dificuldade para manter os pagamentos em dia.
O presidente argentino Javier Milei relacionou o avanço do endividamento ao aumento da compra de televisores durante a Copa do Mundo.
Em entrevista ao jornal argentino La Nación, Milei também reagiu às críticas sobre o crescimento das dívidas. Perguntou se alguém havia colocado “uma pistola na cabeça” dos consumidores para que recorressem ao crédito.
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