Brasil Análise
A Independência vista de fora
O 7 de Setembro expõe as contradições de um país ainda marcado por desigualdade e crise institucional.
07/09/2026 08h48
Por: Eduardo Moura | coluna Em Conexão

Todo 7 de Setembro, o Brasil volta à mesma imagem. Dom Pedro às margens do Ipiranga, espada levantada e o famoso “Independência ou Morte”.

Foi assim que aprendemos na escola. Só que a história, como quase sempre, é mais complicada do que a cena que ficou.

A Independência não aconteceu em um único dia. Foi resultado de um processo político que já estava em andamento antes de setembro de 1822, ressaltado pela  historiadora Lilia Schwarcz.

O Ipiranga virou o grande símbolo e símbolos têm força. Às vezes, até mais força do que os próprios fatos.

Outra independência

Morando fora, passei a olhar para essa data de outro jeito. Aqui na Argentina, e em boa parte da América Latina, a independência é lembrada por guerras, revoluções e confrontos com as antigas metrópoles.

O Brasil fez uma ruptura diferente. Separou-se de Portugal, mas continuou monarquia, comandada pelo filho do rei português.

Há também uma parte menos confortável dessa história. O país se tornou independente, mas a escravidão continuou por mais 66 anos.

Negros, indígenas, mulheres e a população pobre ficaram praticamente fora das decisões sobre o Brasil que estava nascendo.  A liberdade do país não significou, naquele momento, liberdade para todos.

O historiador João Paulo Pimenta, professor da USP, chama atenção justamente para esse olhar mais amplo.

Ao tratar da Independência, o historiador defende que a história não seja explicada apenas por grandes personagens transformados em heróis.

É preciso considerar também as forças coletivas e a participação de indígenas, escravizados e outros grupos que fizeram parte daquele processo.

O historiador Sérgio Guerra Filho resume bem essa contradição ao dizer que “o Sete de Setembro não dá conta da diversidade de experiências vivenciadas nas províncias”.

Talvez seja justamente essa a melhor forma de olhar para a data hoje. Menos como uma fotografia congelada de 1822 e mais como uma história que ainda pede perguntas.

O Brasil que passa pela janela do Brasil

Brasil hoje

Elas não faltam em 2026. O Brasil chega a este 7 de Setembro no meio de uma das maiores crises recentes do Supremo Tribunal Federal (STF), provocada pelos desdobramentos das investigações do Banco Master e por acusações envolvendo integrantes das próprias instituições que deveriam fiscalizar o poder.

Ao mesmo tempo, o país caminha para uma eleição presidencial cada vez mais marcada por esse desgaste.

Visto de fora, isso chama ainda mais atenção. A América Latina conhece bem democracias tensionadas, desigualdade, corrupção e instituições que precisam provar, o tempo todo, que as regras valem para todos.

Dois séculos depois das independências, essa talvez continue sendo uma das grandes questões da região.

Ministros do STF

Olhar de fora

Porque independência não é apenas ter bandeira, hino e fronteira. Ela precisa ser sentida por quem trabalha, paga aluguel, pega ônibus, depende da escola pública ou do SUS e tenta fazer o salário chegar ao fim do mês. É aí que uma ideia tão grande começa a fazer sentido na vida real.

Talvez seja essa a diferença de olhar o 7 de Setembro estando longe. Há saudade, claro. Mas a distância também ajuda a enxergar o país sem tanta cerimônia.

Celebrar a Independência importa. Perguntar quem realmente consegue vivê-la importa ainda mais.

 

As opiniões expressas neste artigo são de responsabilidade do autor e não refletem, necessariamente, a linha editorial do veículo.

 

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