Outro dia, conversando com uma amiga, contei algumas notícias que, depois de um ano difícil, pareciam finalmente me devolver um pouco de ar. Ela me ouviu, comemorou comigo e disse: “Marina, conta comigo. Você é foda”.
A gente fala essas coisas para as amigas sem saber direito o tamanho que elas têm. Às vezes, uma frase dessas chega num lugar em que nem a gente sabia que estava precisando de curativo.
Nosso assunto seguiu e ela disse que, na mesma semana, uma outra mulher tinha dito isso para ela. E completou: “eu olho para os lados e vejo tantas mulheres fodas que não me sinto no direito de desistir”.
E então ela emendou numa lembrança. Quando saiu do interior da Bahia para morar em Goiânia e estudar, vinha de uma criação em que existiam limites muito bem desenhados para uma mulher. Alguns eram ditos em voz alta. Outros não precisavam ser ditos. Um deles era simples e enorme ao mesmo tempo: mulher não dirigia em estrada.
Até que ela chegou em Goiânia, olhou para os lados e viu as amigas pegando o carro com carteira provisória, indo, vindo, pegando estrada, resolvendo a própria vida, atravessando cidades como se aquilo fosse absolutamente possível.
E ela pensava: será que ninguém avisou a elas que não podia?
Essa pergunta ficou ecoando em mim. Porque talvez seja exatamente assim que muitas mulheres rompem limites: não porque alguém sentou e disse “você pode”, mas porque viram outra mulher fazendo.
Viram uma mulher entrando numa sala. Viram uma mulher dirigindo sozinha. Viram uma mulher dizendo não. Viram uma mulher ocupando uma cadeira. Viram uma mulher indo embora de onde não cabia mais.
Às vezes, ninguém diz “você não pode” com todas as letras. O mundo é mais sofisticado do que isso. Ele cria ambientes. Ele estranha. Ele pergunta se temos certeza. Chama coragem de irresponsabilidade, firmeza de grosseria, ambição de arrogância. Faz uma mulher explicar três vezes aquilo que um homem diria uma só.
O limite, muitas vezes, não vem como muro. Vem como clima.
E talvez por isso os exemplos importem tanto. Eu penso em Cármen Lúcia ocupando uma cadeira no Supremo Tribunal Federal, em um espaço historicamente tão masculino, rodeada por eles e tendo que ensinar sobre os espaços ocupados por mulheres.
Penso em Gabriela Prioli dizendo, outro dia, que continuará sendo feminista mesmo quando a palavra incomoda tanta gente porque, para que hoje uma mulher possa votar, dizer não, estudar, trabalhar, escolher e existir com alguma liberdade, outras mulheres precisaram antes sustentar essa palavra quando ela custava ainda mais caro.
Penso também nas mulheres que não aparecem no jornal, na TV ou na nossa rede social. Na mãe que volta a estudar depois dos filhos. Na amiga que separa sem garantia nenhuma de que vai dar certo. Na mulher que aceita uma promoção morrendo de medo. Na que abre uma empresa. Na que denuncia. Na que muda de cidade. Na que decide não diminuir a própria voz só para caber melhor no ambiente.
E penso em mim. Eu também fui. E talvez eu não tenha ido só por mim. Talvez, sem saber, eu tenha ido também por alguma mulher que um dia vai olhar para essa história e pensar: se ela foi, eu também posso. A gente subestima o poder de uma mulher indo.
Uma mulher que vai primeiro abre uma fresta. Uma mulher que permanece de pé, mesmo tremendo, vira prova. Uma mulher que ocupa um espaço difícil não ocupa só por ela. Ocupa também por todas que, ao vê-la ali, começam a desconfiar dos limites que receberam.
No fim, talvez seja isso que a gente precise fazer mais umas pelas outras: lembrar. Lembrar que ela já atravessou coisa demais para duvidar de si agora. Lembrar que alguém já dirigiu pela estrada antes, já saiu de casa antes, já ocupou a cadeira antes, já enfrentou a sala antes, já ficou de pé antes.
Porque, muitas vezes, uma mulher só precisa olhar para outra e pensar: “se ela foi, talvez eu também possa ir”.
E talvez seja assim, uma indo e puxando a outra pelo exemplo, que a gente descubra que muitos dos limites que colocaram na nossa frente nunca foram nossos de verdade.
E talvez alguém pergunte: mas essa coluna não era sobre maternidade?
Era. É. Talvez poucas coisas sejam tão ligadas à maternidade quanto falar sobre os espaços que as mulheres ocupam e sobre os limites que tentaram colocar nelas. Porque muitas de nós estamos criando meninas que precisarão aprender, desde cedo, a reconhecer quais portas estão fechadas de verdade e quais só pareciam fechadas porque ninguém esperava que elas tentassem abrir.
E muitas de nós estamos criando meninos que também precisam aprender. Não para “permitirem” que mulheres ocupem espaços, porque esse lugar de autorização nunca foi deles.
Mas para crescerem entendendo que não são donos dos limites, nem das estradas, nem das salas, nem das escolhas, nem das vozes das mulheres ao redor.
Falar sobre mulheres que vão, portanto, também é falar sobre os filhos que estamos criando. Sobre as meninas que precisam ver possibilidades. Sobre os meninos que precisam desaprender privilégios. Sobre uma casa, uma escola, uma cidade e um mundo onde nenhuma criança cresça acreditando que coragem tem gênero.
No fim, talvez seja isso que uma mulher ensine quando vai: que o caminho existe. E talvez seja isso que uma mãe ensine quando não se diminui: que ninguém deveria nascer aprendendo até onde uma mulher pode chegar.
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▫️crédito da foto: Gi Vieira
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