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Todos os homens do candidato
A divisão de gênero nas pesquisas eleitorais expõe como o discurso conservador encontra mais espaço entre os homens e ajuda a redesenhar a disputa por 2026.
12/08/2026 22h10 Atualizada há 4 dias
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder

As pesquisas para 2026 repetem o desenho de 2022: uma separação nítida de gênero. Em julho, o Datafolha deu Lula à frente entre as eleitoras num eventual segundo turno contra Flávio Bolsonaro: 50% a 40%.

A Quaest, entre 31 de julho e 3 de agosto, encontrou o mesmo: Lula com 47% a 35% entre as mulheres, Flávio com 44% a 40% entre os homens.

A assimetria importa: a vantagem de Lula entre as eleitoras é larga, mas quatro pontos entre os homens cabem na margem de erro. As mulheres, 52% do eleitorado, rejeitam a direita com clareza. Os homens estão divididos.

Gênero não é a única variável: renda, escolaridade, religião e região também pesam, e nem todo homem vota à direita. Ainda assim, a regularidade sugere a pergunta: o que a direita oferece a esses homens?

 

Uma promessa de restauração.

A promessa é a de um homem que se basta: autossuficiente, provedor, senhor de suas emoções, que não hesita nem pede ajuda. Dito assim, o ideal tem apelo: oferece um roteiro claro num mundo em que quase nada é claro.

A dificuldade começa quando precisa ser provado o tempo todo, e o único idioma disponível é o domínio: sobre a família, sobre o corpo feminino, sobre os adversários, sobre a realidade.

É o macho alfa da literatura de aeroporto, do influenciador que grita conselhos, do empreendedorismo de si como doutrina moral: um sujeito que confunde força com ausência de limites, e autoridade com capacidade de impor.

A imagem não foi inventada pela direita brasileira: atravessa uma longa tradição de guerreiros e heróis. Mas os antigos não legaram apenas heróis; legaram heróis trágicos, e a tragédia é o que sobra quando se conta a história até o fim.

A Ilíada não termina com a glória de Aquiles. Termina com Príamo atravessando as linhas inimigas para beijar as mãos do homem que matou seu filho, e os dois chorando na mesma tenda.

Aquiles devolve o corpo de Heitor e concede uma trégua para o funeral: o poema fundador da tradição guerreira termina no enterro do inimigo.

Para fazer desses homens um manual de virilidade, é preciso interromper a leitura antes do fim.

A tragédia não ensina que o homem forte vence tudo. Ensina que ninguém vence tudo.

Nietzsche chamava de otimismo socrático a crença de que todo sofrimento é um problema à espera de método. É o que vendem os manuais de virilidade: disciplina bastante, mentalidade correta, nenhum limite real.

Essa leitura descartou a dimensão trágica dos heróis e guardou só a fantasia de invulnerabilidade: um modelo impossível de sustentar.

O trabalhador não controla a economia. O pai não protege os filhos de toda dor. O marido não é indispensável à sobrevivência material da esposa, ao prazer sexual dela, e menos ainda pode impedi-la de partir.

O corpo envelhece. O desejo falha. O emprego desaparece. A doença chega. E a vida acaba.

Quando a experiência desmente a promessa, alguns vivem o limite como humilhação. Sem poder, encenam-no: elevam a voz, exibem armas, transformam qualquer contestação em afronta.

A ascensão das mulheres intensifica a crise: elas trabalham, sustentam famílias, não precisam mais aceitar submissão econômica, afetiva ou sexual.

O que para elas é liberdade pode ser vivido como perda: o privilégio, quando naturalizado, parece direito.

imagem de arquivo TSE - mulheres votando

Um estudo de 2023 sobre o apoio ao VOX espanhol encontrou o mesmo mecanismo: identificação com traços de dominação previa o voto, e o sexismo explicava metade.

O conservadorismo lhes oferece uma explicação reconfortante: o problema não estaria no velho modelo, mas nas mulheres e no feminismo.

Não se trata de uma guerra inevitável entre homens e mulheres: a igualdade não retira dos homens sua potência. Espinosa separava potência de poder: uma se exerce, a outra se impõe sobre alguém. O que a igualdade retira é a obrigação de converter uma na outra.

Essa masculinidade supostamente forte é frágil: depende da obediência alheia e faz da sensibilidade uma vergonha. Ao obedecer ao superego que manda ser duro e não chorar, ele preserva a aparência da virilidade e perde parte do gozo de estar vivo.

Voltemos aos números. Se os homens se dividem e as mulheres não, é porque essa oferta tem plateia de um lado só. A direita percebeu antes a ferida e vendeu a ela o que não pode entregar: a restauração de um mundo em que bastava ser homem para ter lugar garantido. Nenhum governo devolve isso, porque não foi governo nenhum que tirou.

A esquerda tem a tarefa mais ingrata, e nem sempre a cumpre bem: oferecer trabalho onde o adversário oferece consolo, e falar sobre esses homens em vez de com eles, como faz este texto. Mas a alternativa não é disputar quem promete melhor a restauração.

É dizer o que a tragédia já dizia há três mil anos: que limite não é humilhação, que perder privilégio não é ser expropriado, e que ninguém, nem o mais forte dos homens, vence tudo.

Aquiles devolve o corpo de Heitor depois de chorar com Príamo, não antes. Talvez a coragem seja isso: suportar a própria vulnerabilidade sem convertê-la em violência.

 

COFFÉ, Hilde; FRAILE, Marta; ALEXANDER, Amy; FORTIN-RITTBERGER, Jessica; BANDUCCI, Susan. Masculinity, sexism and populist radical right support. Frontiers in Political Science, v. 5, art. 1038659, 2023. DOI: 10.3389/fpos.2023.1038

 

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