Aviso: este texto contém spoilers da série The Handmaid’s Tale, inspirada no livro homônimo “conto da aia”, de Margaret Atwood.
Há alguns dias, conversava com uma amiga professora sobre uma frase que circula com frequência em diferentes espaços profissionais: “trabalhar com mulheres é mais difícil”. A afirmação costuma ser apresentada como uma verdade evidente, quase uma constatação da experiência cotidiana.
Diz-se que as mulheres seriam mais competitivas, menos empáticas, mais propensas a conflitos e mais dispostas a dificultar a trajetória umas das outras para conquistar determinados lugares.
Mas até que ponto esse discurso corresponde a uma realidade inevitável? E em que medida ele é uma narrativa produzida, repetida e incorporada por nós?
A série The Handmaid’s Tale alugou um triplex na minha cabeça. Estou acompanhando a produção e me sinto particularmente mobilizada pelas relações que ela permite estabelecer com o presente. A obra apresenta Gilead, uma sociedade teocrática, rigidamente organizada e governada por homens, na qual as mulheres têm seus direitos limitados, sua circulação controlada e suas identidades reduzidas às funções que o regime lhes atribui.
Nesse sistema, algumas mulheres são transformadas em aias, destinadas à reprodução; outras ocupam o lugar de esposas, responsáveis pela casa e pela aparência de respeitabilidade do regime; há ainda as Marthas, encarregadas do trabalho doméstico, e as Tias, que atuam na disciplina e na formação das aias.
Embora estejam submetidas ao poder masculino, as mulheres são colocadas em posições diferentes dentro da estrutura social. Algumas recebem parcelas limitadas de autoridade e são levadas a exercer controle sobre outras.
Essa organização não é casual. Um sistema de dominação não se sustenta apenas pela força direta de quem está no topo. Ele também se mantém quando produz hierarquias entre os que estão submetidos a ele, distribui privilégios seletivos e incentiva a competição entre grupos. Assim, em vez de reconhecerem a estrutura que as oprime, as pessoas passam a disputar os poucos espaços de segurança, reconhecimento e poder disponíveis.
Em Gilead, as mulheres são induzidas a acreditar que devem vigiar umas às outras. As esposas são levadas a controlar as aias; as Tias são encarregadas de discipliná-las; as próprias aias são submetidas a rituais de punição e delação. Ao mesmo tempo, o regime apresenta a submissão como proteção, a obediência como virtude e a restrição de direitos como uma forma de ordem social.
A dominação, portanto, não opera somente por meio de proibições. Ela também atua na produção de pensamentos, sentimentos e comportamentos. Ensina as mulheres a compreenderem a si mesmas a partir de categorias definidas por outros. Ensina que determinadas mulheres são perigosas, inadequadas, promíscuas, ambiciosas ou incapazes de exercer autoridade. Ensina, sobretudo, que o problema está umas nas outras.
É nesse ponto que a série dialoga com determinadas experiências do nosso tempo.
Quantas vezes ouvimos que as mulheres são as maiores inimigas das próprias mulheres? Quantas vezes a competição entre elas é tratada como uma característica natural, como se fosse resultado de uma suposta incapacidade feminina para a cooperação?
Quantas vezes uma mulher que alcança uma posição de destaque é apresentada como alguém que precisou se distanciar das demais, tornar-se “diferente” ou provar que não se comporta como “as outras”?
Esse tipo de discurso pode parecer uma simples observação sobre relações profissionais, mas carrega efeitos importantes. Ao afirmar que trabalhar com mulheres é mais difícil, deslocamos a atenção das condições concretas que organizam o trabalho.
Ignoramos ambientes marcados pela competitividade excessiva, pela escassez de oportunidades, pela ausência de políticas de equidade, pela sobrecarga e pela desvalorização profissional. Em seguida, transformamos conflitos institucionais em supostos defeitos de personalidade das mulheres.
Em muitos espaços, as mulheres ainda precisam provar continuamente que são competentes. Precisam demonstrar que merecem ocupar cargos de liderança, que sabem tomar decisões, que não são excessivamente sensíveis, que não deixarão a maternidade ou a vida familiar interferir no trabalho.
Quando poucas conseguem acessar determinados lugares, é possível que sejam colocadas em competição umas com as outras. O reconhecimento de uma passa a ser percebido como ameaça à trajetória de outra.
Não se trata de negar que existam conflitos entre mulheres. Eles existem, assim como existem conflitos entre homens, grupos profissionais, gerações e diferentes segmentos sociais. O que precisa ser questionado é a ideia de que a rivalidade feminina seja natural, inevitável ou biologicamente determinada.
As relações entre mulheres também são atravessadas por desigualdades de classe, raça, idade, orientação sexual, posição profissional e acesso a recursos. Nem todas vivenciam as mesmas formas de opressão. Algumas podem reproduzir violências contra outras porque ocupam posições mais protegidas dentro de determinada estrutura.
A sororidade, portanto, não deve ser compreendida como uma obrigação de concordância permanente entre todas as mulheres, mas como um compromisso ético de reconhecer as desigualdades e recusar a naturalização da violência.
Na série, algumas personagens participam ativamente da manutenção do regime. Isso não significa que tenham criado as regras que as submetem, mas revela que a opressão pode ser reproduzida por pessoas que também sofrem seus efeitos.
A existência de mulheres em posições de controle não torna o sistema menos patriarcal. Ao contrário, mostra como estruturas de poder podem utilizar determinados sujeitos para administrar a submissão de outros.
Essa é uma das dimensões mais complexas da narrativa: as mulheres não aparecem apenas como vítimas passivas, nem apenas como agentes livres de suas escolhas. Elas se movimentam em um sistema que limita suas possibilidades, oferece recompensas para a obediência e pune qualquer tentativa de ruptura.
Algumas se conformam, outras resistem, algumas oscilam entre essas posições. A série nos obriga a pensar sobre as zonas cinzentas da responsabilidade, do medo e da sobrevivência.
Em determinado momento, algumas personagens começam a perceber que precisam olhar para si mesmas e reconhecer o poder que possuem. Não se trata de um poder absoluto, pois suas escolhas continuam condicionadas pelas estruturas de Gilead. Ainda assim, a consciência de que não são apenas objetos da história abre possibilidades de resistência.
O reconhecimento da própria capacidade de agir rompe, pouco a pouco, a narrativa que pretendia mantê-las isoladas e umas contra as outras.
Nas devidas proporções, essa reflexão também pode ser feita sobre os dias atuais. Não vivemos em Gilead, e comparar diretamente a sociedade contemporânea com a distopia de Atwood seria inadequado. Contudo, certas estratégias de controle permanecem reconhecíveis: a tentativa de definir o que uma mulher pode ser, a vigilância sobre seu corpo, a desconfiança em relação à sua liderança, a cobrança por comportamentos contraditórios e a insistência em colocar mulheres em disputa.
Uma mulher deve ser firme, mas não pode parecer autoritária. Deve ser sensível, mas não pode demonstrar fragilidade. Deve liderar, mas sem ameaçar os homens ao redor. Deve apoiar outras mulheres, mas precisa competir com elas por reconhecimento. Deve ser independente, mas não pode deixar de atender às expectativas sociais de cuidado e disponibilidade.
Diante disso, talvez seja necessário perguntar: quem se beneficia quando as mulheres acreditam que não conseguem trabalhar juntas?
A resposta não está em negar as diferenças ou idealizar as relações entre mulheres. Também não está em afirmar que toda crítica feita por uma mulher a outra seja resultado de misoginia. O caminho consiste em examinar as condições que produzem os conflitos, identificar os discursos que os naturalizam e perceber quando estamos reproduzindo uma lógica que nos foi ensinada.
Talvez muitas mulheres não sejam menos empáticas entre si por uma característica própria, mas porque foram educadas e inseridas em espaços que frequentemente lhes oferecem pouco apoio, poucas oportunidades e reconhecimento condicionado à superação das demais. Talvez o problema não esteja na presença de muitas mulheres, mas nas estruturas que continuam definindo o sucesso como uma competição individual.
O conto da aia nos convida a observar como uma sociedade pode convencer as pessoas de que a opressão é ordem, de que o controle é cuidado e de que a disputa entre subordinadas é natural. Ao assistir à série, não penso apenas no poder dos homens sobre as mulheres.
Penso também nas narrativas que fazem as mulheres duvidarem umas das outras e aceitarem como verdade aquilo que limita suas possibilidades de solidariedade.
Por isso, quando ouvirmos novamente que “trabalhar com mulheres é mais difícil”, talvez valha a pena interromper a concordância automática e perguntar: mais difícil para quem, em quais condições e por quê?
A reflexão começa quando deixamos de aceitar determinados discursos como verdades naturais. E talvez a resistência também comece aí: no momento em que reconhecemos que não precisamos disputar entre nós todos os espaços que nos foram historicamente negados.
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