Eu estava numa palestra, não deve ter mais de dois anos isso, quando o palestrante perguntou: “o que é saudade? Quem sabe me responder?”
Umas cinco ou seis pessoas levantaram a mão e se arriscaram em conceitos para explicar essa palavra tão nossa, tão brasileira e tão profunda. Mas ele não queria uma definição. Queria saber o que dava saudade na gente.
E então começou aquele momento de nostalgia coletiva. Porque basta alguém abrir essa porta para todo mundo encontrar alguma coisa guardada ali dentro.
Para mim, saudade tem gosto do bolo de chocolate que minha mãe fazia quando eu era criança. Tem cheiro do espetinho que eu comia com meu avô no boteco depois da aula. Tem o som da frase repetida que minha avó dizia ao atender o telefone; das ondas quebrando; do ônibus voltando das férias; do barulho do toque do telefone fixo e da internet discada para falar com os amigos.
Saudade, quando eu era filha, era quase sempre um lugar para onde eu queria voltar.Depois, a saudade mudou de endereço.
Com a maternidade, passei a sentir saudade de quase tudo. Principalmente no puerpério, quando a vida antiga parecia ter sido levada embora sem me perguntar se eu estava pronta para a despedida.
Sentia falta do meu corpo sem leite escorrendo, das noites inteiras de sono, de não viver em alerta com qualquer respiração diferente do bebê. Sentia falta das amigas, de escolher restaurante pela comida e não pela brinquedoteca, de tomar banho sem pressa, de comer quente, de sair de casa com uma bolsa pequena, de ser apenas uma mulher andando pela rua sem carregar mentalmente a vida de outra pessoa.
É doido admitir isso, porque a gente ama tanto aquele bebê que chega a doer. Mas amor não apaga saudade. Uma coisa não cancela a outra. Eu amava profundamente meus filhos e, ainda assim, sentia falta de mim.
Talvez essa seja uma das primeiras saudades que a maternidade apresenta: a saudade da mulher que a gente era antes. Não porque ela fosse melhor, mas porque ela era conhecida. Porque ela dormia. Porque ela improvisava. Porque ela não precisava pensar em lanche, vacina, fralda, febre, escola, casaco e remédio antes das oito da manhã.
Só que o tempo passa. E, quando a gente finalmente começa a se acostumar com uma fase, ela muda.
Aí eu comecei a sentir saudade de quando eles cabiam inteiros no meu colo. De quando me chamavam para descer da cama, em vez de levantarem sozinhos e começarem o dia sem mim.
Das primeiras risadas no tapete da sala rodeada de brinquedos, dos banhos espremida entre corpos pequenos, da mãozinha procurando a minha, da voz errada falando palavras que eu prometi nunca esquecer — e esqueci algumas.
Senti saudade do cheiro de bebê depois do banho. Da coberta do Gustavo arrastando pela casa. Da naninha da Júlia na cama da cachorra. Senti saudade das fases que, quando eu estava vivendo, também me cansavam profundamente.
E talvez seja isso que mais confunda a gente: muitas vezes sentimos saudade justamente daquilo que, na época, parecia impossível de aguentar.
A gente sente saudade do bebê que não dormia, mas esquece do corpo exausto. Sente saudade da criança grudada na nossa perna, mas esquece da vontade de ir ao banheiro sozinha. Sente saudade das perguntas sem fim, mas esquece que, em alguns dias, tudo o que queria era silêncio.
Cada fase que passa acende a saudade da fase anterior. Que mãe não, minha gente?
A gente passa os primeiros anos desejando pequenas independências: que durmam melhor, comam sozinhos, larguem a fralda, coloquem o próprio sapato, brinquem sem chamar a cada três minutos. E então, quando eles finalmente conseguem, a gente sente um aperto discreto. Porque junto com a autonomia vem uma pequena despedida.
Um dia eles param de pedir para dormir na nossa cama. Um dia deixam de caber no colo. Um dia não querem mais a camiseta que a gente escolheu. Um dia preferem os amigos. Um dia fecham a porta do quarto. Um dia contam menos detalhes. Um dia dizem “deixa que eu faço, sou menina grande” — e fazem mesmo.
A gente se orgulha, claro. Era para isso que a gente estava criando: para que eles fossem, conseguissem, tivessem mundo, escolha, coragem e caminho. Mas ninguém avisa que criar filhos é amar uma pessoa em permanente despedida.
Não uma despedida triste o tempo todo. Mas uma despedida miúda, cotidiana, quase invisível.
A maternidade é uma escola de saudade porque nos obriga a ver o tempo passando dentro de casa: no número do sapato que muda, na letra que melhora, na mochila que pesa mais, no abraço que vai ficando mais alto.
E aí eu fico pensando: se a saudade acompanha tanto a nossa vida, do que será que nossos filhos vão sentir saudade?
Será que vão lembrar do cheiro da nossa casa? Da música que tocava no carro? Do jeito como a gente chamava pelo nome inteiro quando estava brava? Das noites em que sentamos na beira da cama para conversar mais cinco minutos? Da nossa mão segurando forte quando alguma coisa doía?
Será que, um dia, quando alguém perguntar o que é saudade, eles vão responder com alguma coisa que hoje parece banal para nós?
Talvez seja por isso que a saudade aperta tanto: porque ela não fala só do que passou. Ela fala do que foi importante. Do que nos formou. Do que continua morando na gente.
No fim, acho que a saudade é uma constante porque a vida não para de nos atravessar. A gente está sempre entrando numa fase nova, enquanto sente falta de alguma coisa que ficou na anterior.
Foi um pouco por isso que escrevi Quando a saudade aperta. Porque, se a saudade faz parte da vida das mães, também faz parte da vida das crianças.
E talvez uma das nossas tarefas seja justamente essa: ensinar que a saudade aperta, sim, mas aperta porque houve amor. E pode virar memória, afeto e um jeito bonito de lembrar que aquilo que foi vivido valeu a pena.
crédito das fotos: Gi Vieira
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