Em maio, na posse do novo presidente do Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, um pré-candidato à Presidência pediu diante das câmeras a única coisa que todo político em campanha pede nesse tipo de cerimônia: neutralidade.
Minutos depois, no mesmo microfone, chamou o partido adversário de câncer. Dois meses depois, diante de diplomatas de mais de quarenta países em Brasília, o mesmo senador pediu que cada país enviasse observadores estrangeiros para a eleição de outubro, e repetiu a alegação, já desmentida pelo TSE, de que as urnas eletrônicas brasileiras teriam ligação com uma empresa venezuelana associada a fraude.
Vale notar o momento escolhido para esse pedido. Não foi feito depois da apuração, quando ainda haveria disputa sobre o resultado. Foi feito antes de qualquer voto ser contado, num evento com plateia diplomática, como quem já monta a narrativa que vai precisar caso o resultado não seja o esperado.
É praticamente o mesmo roteiro que o próprio pai usou depois de perder em 2022, só que adiantado: antes, contestava-se a urna depois da derrota; agora, contesta-se antes mesmo de a eleição acontecer.
Dois eventos, um padrão. Vale examiná-lo com calma, porque é mais comum do que parece e funciona em qualquer direção do espectro político.
Faça um teste antes de continuar. Pense em alguém que pede "neutralidade" ou "observadores independentes" num processo eleitoral. Essa pessoa está pedindo ausência de posição, ou está pedindo que o árbitro pare de atrapalhar a posição dela?
Na maior parte das vezes, é a segunda opção. E isso não é hipocrisia consciente. Raramente enxergamos nossas próprias convicções como fruto de interesse, afeto ou lugar social. Sentimos que enxergamos os fatos. O outro lado, esse sim, estaria contaminado por ideologia. Chamo isso de assimetria da neutralidade: nós temos razões, o adversário tem viés.
Descartes abre o Discurso do Método dizendo que o bom senso é a coisa mais bem distribuída do mundo, porque cada um se acha tão bem provido dele que ninguém pede mais do que já tem. A frase é irônica: ele zomba da nossa vaidade coletiva, não a elogia. Politicamente, dá para levar essa ironia adiante.
Ninguém pede mais bom senso para si porque todos já se consideram razoáveis, mas o rótulo de sensato não é distribuído por autoavaliação. É distribuído por poder. Algumas posições chegam ao debate já com a etiqueta de sensatas; outras precisam gastar energia só para provar que merecem sentarà mesa.
A vaidade que Descartes descreve, a certeza de que o próprio julgamento já basta, é o mesmo mecanismo que explica por que quem está no poder raramente se percebe como parcial.
Essa distribuição desigual do rótulo aparece com regularidade quase mecânica no vocabulário político. Um reajuste salarial vira corporativismo. O lucro empresarial vira estabilidade econômica. Uma manifestação vira perturbação da ordem.
Uma acusação de fraude sem provas, feita perante diplomatas, vira zelo democrático. Em todos os casos existe interesse. Só alguns aprenderam a se apresentar sem parecer interessados.
Isso não significa que fatos não existam, nem que toda posição valha o mesmo. Significa que quem fala do centro do debate raramente percebe que também fala de algum lugar. O centro parece parado do mesmo jeito que o chão parece parado: só porque você está em cima dele.
Pedir neutralidade em praça pública é só a versão mais visível de um jogo mais amplo, o mesmo que transforma interesse em bom senso, corporativismo em prudência, fraude sem provas em zelo democrático.
Toda vez que uma posição consegue se apresentar como ausência de posição, alguém saiu na frente antes de o debate começar.
O mais notável no pedido feito aos diplomatas não é o conteúdo. É a data. Se a eleição for limpa, os observadores vão constatar isso, e o episódio será esquecido. Se ele perder, a acusação de fraude já estará pronta havia meses, pronta para ser usada com ou sem o que os observadores de fato encontrarem.
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