Um dos versículos mais perturbadores da Bíblia está no Salmo 137. O poeta, devastado pelo exílio imposto pela Babilônia ao povo judeu, escreve:
"Feliz aquele que pegar os teus filhos e os esmagar contra a pedra."
Lido literalmente, o texto choca, e deve chocar. Não importa aqui se os fatos aconteceram como o relato descreve. O que importa é a imagem que ficou: a Babilônia como arquétipo de um poder que devora tudo o que toca, que não reconhece limite, que transforma súditos em despojo.
É por isso que o nome atravessou séculos e continua servindo de metáfora. Toda cultura que já viveu sob um poder assim reconhece a Babilônia quando a vê de novo.
Mas talvez a força dessa passagem não esteja na violência contra crianças, e sim na compreensão de que a Babilônia sempre começa pequena.
São os primeiros gestos de um Estado que passa a acreditar que tudo lhe pertence. A força substitui o direito, o líder se coloca acima da lei, a propaganda pesa mais do que a verdade.
A religião passa a servir ao poder. A imprensa precisa ser domesticada, as minorias precisam ser silenciadas, e os opositores deixam de ser adversários para se tornarem inimigos.
Ela não surge de um golpe repentino. Cresce como uma criança. Primeiro, tolera-se um pequeno abuso. Depois, uma mentira conveniente. Em seguida, a perseguição de quem pensa diferente. Há algo de humano, quase íntimo, nesse processo.
Ninguém tolera o abuso porque o aprova. Tolera porque o primeiro gesto é pequeno demais para justificar o desconforto de uma reação. É mais fácil normalizar do que confrontar. A psicanálise tem um nome para isso: a negação que não nega o fato, mas nega sua gravidade. Sabemos, mas agimos como se não soubéssemos. Quando percebemos, a criança tornou-se um gigante.
A Alemanha de Weimar sabia disso. Ninguém em 1928 imaginava o que aquele partido marginal se tornaria uma década depois. As sementes pareciam ridículas demais para serem levadas a sério. Foi exatamente essa incredulidade que as deixou crescer.
Talvez seja essa a pedra do salmo: ela não deve atingir pessoas, deve atingir as ideias, ainda no berço.
Devemos esmagar, enquanto ainda são pequenas, todas as sementes da Babilônia. O culto à personalidade, quando um nome passa a valer mais que um cargo. O autoritarismo, quando a lei vira obstáculo em vez de garantia. A mentira organizada, quando a repetição substitui a prova. O desprezo pelas instituições, quando a urna, o juiz ou a imprensa deixam de ser árbitros para virarem inimigos.
Há um risco nessa metáfora, e vale reconhecê-lo. Quem decide o que é semente de Babilônia e o que é apenas divergência legítima? Todo poder que se torna autoritário começou chamando seus críticos de inimigos do povo, mas nem todo crítico do poder é semente de tirania. A pedra do salmo exige discernimento, não reflexo. Esmagar ideias por esmagar é o próprio gesto babilônico, disfarçado de virtude.
O voto não serve apenas para escolher administradores. Serve para impedir que os filhos da Babilônia cresçam. Pouco importa se vêm vestidos de patriotismo ou de religião, de revolução ou de qualquer outra bandeira.
O Brasil já viu essas sementes germinarem: no discurso de que urnas não prestam, de que juízes são inimigos, de que a família de um político vale mais que as instituições da República.
Sempre que um candidato prega uma sociedade em que o poder vale mais que a liberdade, em que o líder vale mais que a Constituição, em que os diferentes deixam de ser cidadãos para se tornarem inimigos, ali já nasceram os filhos da Babilônia.
A história ensina que é muito mais fácil impedir que a Babilônia nasça do que derrubá-la depois de adulta. Em 2026, essa escolha estará, mais uma vez, na mão do eleitor.