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O papel da educação na luta por igualdade e justiça
coluna | Sala de Aula
10/06/2025 10h31 Atualizada há 1 ano
Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula

Além das correntes invisíveis: O papel da educação na luta por igualdade e justiça

 

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Como pedagoga negra com mais de duas décadas de atuação na educação, raramente encontro obras cinematográficas que tocam tão profundamente minha alma quanto o filme "Marshall - Igualdade e Justiça". Ao assistir à trajetória de Thurgood Marshall, primeiro juiz negro a integrar a Suprema Corte dos Estados Unidos, senti-me transportada não apenas à realidade norte-americana da época, mas também às minhas próprias memórias de infância e adolescência na sala de aula. Algumas cenas despertaram em mim um nervosismo familiar, reminiscências de situações preconceituosas vividas no ambiente escolar. 

Contudo, um momento específico no filme me fez pausar a reprodução para rabiscar reflexões em meu caderno: quando o réu, mesmo sendo inocente, considera aceitar um acordo para 20 anos de prisão. Neste momento crucial, o Dr. Marshall intervém com palavras que ressoam além da tela: "Você é oriundo de família de escravos?" Ao que o seu cliente (o réu) responde que seu avô havia fugido e lutado contra quatro homens brancos e um cachorro por sua liberdade. Marshall então questiona: "E hoje, que não somos mais escravos, você vai entregar sua liberdade assim? Sem lutar?"

Este diálogo transcende o contexto jurídico e nos convida a refletir sobre a importância do processo de nossa formação e do significado profundo de sermos seres históricos e sociais. A compreensão dessas questões inerentes ao nosso desenvolvimento como humanidade perpassa inevitavelmente os processos educacionais. Para Marshall, em uma realidade norte-americana extremamente preconceituosa, a educação foi um instrumento fundamental que o permitiu romper barreiras e ser um advogado reconhecido, galgando espaço na Suprema Corte.

Ao transpor essas reflexões para nossa realidade atual, pergunto-me: como podemos dar o nosso grito de liberdade? É verdade que as correntes não são mais de aço e as senzalas tomaram outras formas, mas ainda lutamos diariamente por equidade e igualdade de oportunidades. Continuamos na batalha pelo direito de aprender independentemente de classe social, raça, credo ou gênero.

Quando chegará o dia em que filhos de pobres e filhos de ricos terão os mesmos direitos educacionais? Quando teremos, de fato, escolas públicas de qualidade social, cumprindo plenamente sua função na sociedade? Quando veremos professores respeitados e adequadamente remunerados, estruturas físicas apropriadas e processos educativos que vão além da manutenção do status quo?

Sonho com uma educação que forme pessoas capazes de pensar o futuro da nação e do planeta, que privilegie a emancipação humana no real sentido dessa terminologia. Uma educação que não apenas reproduza conhecimentos, mas que transforme realidades e rompa ciclos de desigualdade.

Não consigo vislumbrar essa transformação sem que haja processos educativos adequados e com a representatividade das minorias sociais nas instâncias de poder. Para que esse dia chegue, a educação formal é imprescindível, assim como é fundamental que nos processos educativos os grupos majoritários possam enxergar as minorias sociais, dando-lhes voz quando forem silenciadas.

Precisamos de muitos ‘outros Marshall’ em nossa sociedade. Também necessitamos de figuras como Josh Gad, o advogado judeu que, no filme, faz parte da equipe de Marshall e transforma sua percepção sobre a realidade negra após o trabalho em conjunto. Essas mudanças de perspectiva são essenciais para construirmos uma sociedade que contemple a justiça social.

Ao final desta reflexão, afirmo e reafirmo: a educação é o caminho! Como pedagoga, orgulho-me da possibilidade de fazer a diferença por onde passo, buscando ser ponto de interrogação e divergência no sentido da mudança social. E sei que essa luta não é solitária. Muitos educadores, assim como eu, trabalham diariamente para transformar realidades, questionar privilégios e abrir espaços para vozes historicamente silenciadas.

O filme "Marshall" nos lembra que a luta por liberdade, igualdade e justiça é constante e que cada um de nós tem um papel fundamental nessa batalha. Que possamos, como educadores e cidadãos, seguir o exemplo de Thurgood Marshall: questionar as injustiças, lutar pelos nossos direitos e nunca entregar nossa liberdade sem resistência.

Afinal, não somos mais escravos. 

E juntos, com certeza, somos muito mais fortes.