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As mulheres que nos sustentam
Um relato sobre como a amizade feminina e o cuidado compartilhado ajudam a sustentar a vida em todas as fases.
08/07/2026 06h00 Atualizada há 3 semanas
Por: Marina Marquez | coluna De Mãe para Mãe

Decidi tirar férias. Férias de verdade, expliquei para todo mundo. Do trabalho, da empresa, dos planos e até da maternidade. Não porque fosse possível deixar de ser mãe durante três semanas, mas porque eu queria, por alguns dias, deixar de ser a responsável por fazer o mundo inteiro continuar girando.

Embarquei com três amigas para a Itália. Nos primeiros dias, ainda me pegava pensando no mercado, nos bilhetes da escola, nas aulas, no clima e em tudo relacionado à minha vida multitarefas. Meu corpo estava na Itália, mas uma parte da minha cabeça continuava fazendo listas do outro lado do oceano.

Vivemos a saudade do meu filho no auge do que esse sentimento pode entregar: muitas ligações, muito choro, muito trabalho para que aquilo se transformasse em amadurecimento e em uma nova forma de lidar com a distância. A saudade não desapareceu, claro. Mas, aos poucos, deixou de ocupar todos os espaços.

Para que essas férias fossem possíveis, mobilizei o mundo. A babá se mudou para minha casa, minha tia buscou as crianças na escola todos os dias e ficou até elas dormirem. Encaixei a data para que tivessem dois fins de semana do pai durante o período. Minha mãe garantiu o fim de semana extra num bate e volta corrido, mas cheio de amor.

Foi preciso uma pequena comunidade, toda formada por mulheres, para que eu pudesse parar. Enquanto eu descansava, havia outras mulheres lembrando horários, oferecendo colo, ajudando na saída da escola, preparando comida e fazendo a vida seguir. Talvez nenhuma mulher consiga realmente tirar férias sozinha. Por trás de uma mulher que vai, quase sempre existem outras sustentando a sua partida.

E então eu vivi três semanas de um sonho. Massas, vinhos, caminhadas sem rumo, cultura, história, paisagens e cidades maravilhosas, céu, mar, quase verão. Vivi também a rara experiência de acordar e não ser imediatamente necessária, de escolher o caminho do dia pelo desejo e não pela obrigação. De comer quando dá vontade, não quando o relógio natural infantil apita. Talvez por isso, quando a cabeça finalmente desacelerou, eu tenha começado a olhar com mais atenção para as mulheres que cruzavam o nosso caminho.

Viajar pela Europa é encontrar, todos os dias, grupos inteiros conhecendo o mundo. Mas, dessa vez, não foram as paisagens que mais me chamaram a atenção. Foram elas: muitas mulheres mais velhas, viajando juntas, ocupando ruas, trens, restaurantes e vinícolas com uma liberdade que eu ainda estou aprendendo a construir. Ou melhor: muitas idosas. E eu enxerguei cada uma delas com um olhar diferente.

Estávamos em Florença, durante um passeio por vinícolas, quando as conhecemos. Eram cinco amigas brasileiras, com seus cabelos brancos, suas mochilinhas nas costas e uma disposição que fazia a nossa parecer pequena. Só uma me contou a idade — 76 anos. As outras ficaram assombradas com meu desrespeito por perguntar esse tipo de coisa. Mas ninguém tinha menos de 65 anos, posso garantir.

“Mas, gente, vocês me inspiraram tanto! Qual é o segredo?”

“Ah, querida, pilates! E musculação para aguentar as subidas e descidas. Mas, principalmente, amizade”, me explicaram.

Elas tinham acabado de fazer o Caminho de São Francisco: 290 quilômetros em 18 dias. Quando terminaram, decidiram passar mais alguns dias conhecendo vinícolas, destinos e a cultura do dolce far niente. Caminhavam, riam e dividiam uma coisa cujo significado nós, mulheres, conhecemos profundamente: a amizade feminina.

Fiquei olhando para elas como quem olha uma fotografia do futuro. Não pelos cabelos brancos, pelas mochilas ou pelos quilômetros percorridos, mas porque aquelas mulheres ainda estavam ali, escolhendo umas às outras. Depois de filhos, trabalhos, casamentos, separações, perdas, mudanças e tudo o que provavelmente atravessou a vida de cada uma, elas continuavam caminhando juntas.

A amizade entre mulheres, novas ou maduras, é algo difícil de explicar. Não porque os homens sejam incapazes de construir amizades profundas, mas porque existe, entre muitas mulheres, uma forma particular de cuidado: a amiga que percebe pela sua voz que você não está bem; que sabe o que perguntar e, principalmente, o que não perguntar; que guarda a versão de você que existia antes de tudo mudar.

Se você nunca viajou com suas amigas, eu recomendo fortemente que faça isso. Passe alguns dias, longe ou perto, permitindo-se não se preocupar com mais nada além das risadas que darão, das lembranças que criarão e das histórias que contarão. Haverá momentos de falar de assuntos sérios e relembrar as ciladas da vida. Haverá tempo para dividir angústias, dúvidas e as poucas certezas que conseguimos juntar pelo caminho.

Haverá também silêncios confortáveis, implicâncias antigas, piadas que ninguém de fora entenderia e aquela liberdade rara de não precisar explicar quem você é. As amigas conhecem nossas versões anteriores. Sabem de onde viemos, o que suportamos e quantas vezes precisamos nos reconstruir.

Passei 23 dias com amigas de longa data, de data mais curta, de quase todos os dias perto e de morar longe. Quatro mulheres tão diferentes e, ao mesmo tempo, com tanto para somar. Em alguns momentos, fomos companhia. Em outros, fomos colo, memória, confronto, silêncio e gargalhada. Talvez seja isso que as amizades femininas façam de melhor: assumem a forma de que precisamos.

com as minhas três amigas 

No nosso último dia de viagem, pedi um brinde. “À amizade. Porque, em todos os momentos da vida, os bons e os ruins, são as amizades que nos sustentam. São vocês que seguram o rojão. Um brinde às amizades: às novas, às antigas, às amizades.”

Depois fiquei pensando que talvez eu devesse fazer aquele brinde a muitas outras mulheres. Às que viajaram comigo e às que ficaram. Às que seguraram meus filhos, minha rotina, meus medos e a saudade deles. Às que, em diferentes momentos, seguraram também a minha mão.

Os amores nos sacodem, nos levam ao céu e, também, ao chão. Mas são, muitas vezes, as amigas que nos encontram exatamente onde caímos. Elas não impedem o tombo, não resolvem todas as nossas dores e nem sempre têm a resposta certa. Ainda assim, permanecem. Sentam ao nosso lado, dividem o peso e nos lembram quem somos quando nós mesmas esquecemos.

Talvez por isso a amizade entre mulheres não seja apenas um detalhe bonito da vida, mas parte da sua estrutura. São elas que nos ajudam a ir, sustentam o mundo enquanto estamos longe e nos recebem quando voltamos diferentes.

Então esta coluna é também um convite: diga às suas amigas. Diga enquanto é tempo, sem esperar aniversário, viagem ou uma ocasião especial. Diga que elas são memória, colo, chão e alicerce. Que parte da mulher que você conseguiu se tornar existe porque, em algum momento, outra mulher ficou ao seu lado e disse, mesmo sem palavras: “pode ir, eu seguro daqui”.

 

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