Onze anos depois de ocupar as ruas pela primeira vez, o movimento Ni Una Menos voltou a mostrar que algumas feridas da América Latina seguem abertas.
Milhares de mulheres marcharam em Buenos Aires e em 110 cidades argentinas - com reflexos no Uruguai, Chile e México contra a violência de gênero. O estopim foi o assassinato de Agostina Vega, uma adolescente de 14 anos morta na província de Córdoba, na última semana.
O caso chocou o país. Também reacendeu um debate que parecia ter perdido espaço na agenda pública. A coincidência é simbólica. Em 2015, o assassinato de outra adolescente de 14 anos, Chiara Páez, deu origem ao movimento que se transformaria em uma das maiores mobilizações da América Latina.
Mais de uma década depois, a Argentina volta a se fazer a mesma pergunta: o quanto o país realmente avançou no combate à violência contra as mulheres?
Entre 2017 e 2025, 2.158 feminicídios foram registrados na Argentina, o equivalente a um a cada 36 horas, segundo o Escritório da Mulher da Suprema Corte de Justiça da Nação, órgão do sistema judiciário argentino.
As imagens das manifestações impressionam. Não apenas pelo tamanho, mas pelo sentimento que carregam. Os protestos foram motivados por um crime brutal. Mas revelam algo maior.
Há uma percepção crescente de que as estruturas de proteção construídas nos últimos anos perderam força.
Organizações feministas também apontam preocupação com a redução de políticas públicas voltadas à prevenção da violência de gênero na Argentina.
O retorno do Ni Una Menos mostra que certos movimentos não desaparecem. Eles permanecem vivos, mesmo quando deixam de ocupar as manchetes. Esperam apenas o momento em que a realidade volta a exigir sua presença. E quando isso acontece, a marcha deixa de ser apenas uma manifestação. Torna-se um alerta.