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Uma conversa que precisa começar cedo
Pequenos gestos do dia a dia ajudam a formar crianças mais conscientes sobre responsabilidade, respeito e divisão de tarefas dentro de casa.
03/06/2026 06h00 Atualizada há 3 meses
Por: Marina Marquez | coluna De Mãe para Mãe
Marina Marquez - colunista Lead

Outro dia, um sábado qualquer, no fim do almoço, meu filho se levantou, pegou o próprio prato e foi para a pia como se aquilo fosse óbvio. Nem anunciou, nem pediu aplauso — só fez. E eu fiquei olhando aquela cena pequena com uma atenção grande.

Pode não parecer, mas ali estava um gigante exemplo de como a equidade começa dentro de casa: um menino de 5 anos aprendendo cedo que responsabilidade doméstica não é “ajuda”.

Porque a verdade é que, dentro de casa, a gente ensina muita coisa sem precisar de discurso. A criança observa quem lembra, quem organiza, quem sabe onde está a roupa da natação. Ela percebe quem nota que acabou o lanche, quem sabe o horário da consulta, quem recolhe os pratos da mesa.

Quem sabe qual meia “não aperta”, onde está o casaco “que pinica”, qual é a garrafinha da escola e a da academia. Quem percebe, antes de todo mundo, onde encontrar a fantasia que precisa ser providenciada “para ontem”, que o dever de casa está no fundo da mochila, que amanhã tem fruta para levar.

Quem acorda no meio da madrugada com febre alheia e já pensa no termômetro, no antitérmico, no pediatra, no grupo da escola avisando que não vai.

E tem o invisível do cotidiano: quem repõe o papel higiênico sem ninguém lembrar, quem troca o lençol depois do xixi, quem agenda vacina, quem separa roupa que “não cabe mais”, quem antecipa o que vai faltar na geladeira antes que falte.

A criança sabe, porque vê de repetir todos os dias, quem guarda os brinquedos, quem se levanta para resolver e quem só deita depois que tudo volta para o lugar. E cresce entendendo, sem que ninguém diga uma palavra, se isso é “trabalho de todo mundo” — ou se tem sempre a mesma pessoa carregando o invisível.

E se tudo isso fica sempre com a mãe, mesmo quando ninguém fala nada, a casa está ensinando. Está ensinando para o menino que aquilo não é responsabilidade dele. E está ensinando para a menina que aquilo talvez seja responsabilidade só dela. É uma pedagogia silenciosa, diária, teimosa, que não depende de uma frase bonita no Dia da Mulher nem de uma conversa formal sobre igualdade: depende de repetição, de exemplo, de quem faz e de quem não faz.

Por isso, para mim, essa conversa sobre equidade precisa começar cedo — e precisa começar no lugar onde a gente menos romantiza e mais repete: na rotina.

Começa quando meu filho cuida das próprias coisas, assume pequenas tarefas da casa e entende que casa não é hotel e não se limpa sozinha. Não porque eu queira transformar criança em adulto antes da hora, mas porque viver junto exige participação, e cuidado não pode ser a tarefa emocional e operacional de uma pessoa só.

E começa também quando minha filha vê, com os próprios olhos, que ela não nasceu para servir ninguém. Que ela pode ser forte, sensível, organizada, livre, inteira — o que ela quiser, assim como o irmão — porque ela não precisa seguir nenhum padrão que sempre foi conveniente demais para quem nunca precisou carregar a casa nas costas. Para ela, equidade não pode ser só discurso bonito; tem que ser experiência concreta: ver o irmão participando, ver a mãe não sendo a única central de operações da vida doméstica.

No fundo, eu não estou tentando criar filhos “prestativos”. Eu estou tentando criar filhos funcionais: gente que saiba cuidar da própria parte e que entenda que “deixar para alguém” quase sempre tem nome, tem rosto, tem gênero. E que perceba cedo que dividir tarefas não é gentileza: é respeito.

Essa é, para mim, uma das partes mais injustas da desigualdade dentro de casa: ela vem embrulhada como “jeito”, como “ela é melhor nisso”, como “ela se importa mais”, como “ela já sabe, faz melhor”. E, quando a gente percebe, já virou destino. Afinal, casa deveria ser lugar de descanso para todos, mas também de responsabilidade para todos.

Talvez por isso eu tenha olhado para o Gustavo indo até a pia com tanta atenção e até emoção. Porque ali tinha menos sobre pratos e mais sobre o futuro que eu estou ajudando ele a construir: um futuro em que ele não vai crescer esperando que alguém cuide do que ele bagunça — e nem achando normal que esse “alguém” tenha sempre cara de mulher.

Equidade, no fim, é isso: quando o cuidado deixa de ter dono e vira cultura. E é por isso que eu insisto: essa conversa precisa começar cedo. Na minha casa, na sua. Porque quando um menino aprende que cuidado também é parte dele, a gente não está só ensinando tarefas. A gente está ensinando o tipo de homem que ele vai ser — dentro e fora de casa.

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