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A mãe que vai sem os filhos
Entre a culpa e o desejo, a maternidade que não abre mão de si
06/05/2026 06h00 Atualizada há 3 meses
Por: Marina Marquez | coluna De Mãe para Mãe
crédito da foto: Alessandra Anholete

“Por que vai viajar sem a gente? Por que você tem que viajar para trabalhar? Mas eu não quero ficar longe de você. Você tem que ir? Eu vou sentir tanta saudade…”

Essa foi a tônica da despedida na minha última viagem. No dia anterior, ele chorou por 40 minutos. Nos 55 minutos que antecederam minha saída de casa, as lágrimas disputavam espaço com os soluços desesperados — como se o corpo dele tentasse me segurar pela força do sentimento.

Saudade. Uma palavra tão nossa e que ele sente tão profundamente. Sempre foi assim. Com a avó que mora longe. Nas despedidas do pai que tem outra casa. Ao dizer tchau para a tia-avó que verá em poucos dias. Ele sente profundamente a saudade — e não economiza.

E, quando a pergunta vem agarrada no choro, a vontade é dizer: “a mamãe tá indo porque tem que ir, mas não queria”. Como se a verdade precisasse ser amenizada para caber no colo dele. Porque “tem que ir” resolve rápido: coloca a decisão no colo do mundo e não no meu.

Mas a verdade é que queria, sim. A verdade é que quero. Quero ser a melhor mãe do mundo todos os dias, mas também quero sonhar e realizar. Também quero viajar a trabalho, a passeio, me lembrar que eu existo para além da rotina, me levar a cada canto que eu desejar. Também quero ser tanta coisa além de mãe. E é aí que mora o desconforto: dizer “eu tenho que ir” é simples; dizer “eu quero ir” parece, para muita gente, quase um pecado.

Quero estar com eles e viajar com eles, mas também quero silêncio e solitude para escutar uma voz que só sai quando estou só. Uma voz que, quando eu ignoro, volta depois em forma de irritação, cansaço e culpa — e isso também respinga neles. No fundo, essa viagem também é uma tentativa de voltar mais inteira.

Eu poderia mentir para que ele se sentisse mais confortável. Para que doesse menos. Mas o que eu ensinaria com isso? Que a mãe só cabe no trabalho e no lazer porque não tem outro jeito? Que eu sempre vou preferir estar colada neles? Que uma mãe boa é, antes de tudo, uma mãe que se anula?

Fomos ensinadas que é preciso escolher. Mas o que a gente faz com as partes da gente que ficam de fora? O que a gente faz com a mulher que existia antes da maternidade — e que continua existindo durante ela?

Não quero ensinar meus filhos que, para estar com a família, precisam abrir mão de ser profissionais incríveis. Não quero que eles achem que, para amar alguém, precisam abrir mão de outros amores e sonhos. Quero que eles aprendam, desde cedo, que amor não deveria exigir desaparecimento.

E talvez seja por isso que esse tema me atravessa tanto justamente agora, na semana do Dia das Mães: porque existe uma expectativa silenciosa de que a maternidade seja o nosso nome inteiro.

E talvez essa seja a parte mais difícil: não é viajar. É sustentar o “eu quero” sem pedir desculpas por existir. É sustentar o “eu quero” sem transformar isso em culpa.

Ele vai sentir saudade. Eu também vou. Mas quero que ele cresça sabendo que a saudade não é sinal de abandono — é sinal de vínculo. E que uma mãe pode ir e voltar sem se partir no meio. A mãe que viaja sem os filhos não está indo embora deles. Está voltando para si. E, se eu volto para mim, eu volto melhor para eles — não perfeita, mas possível.

E se hoje dói explicar que eu vou, talvez amanhã isso vire uma lição silenciosa: a de que amar não é prender. Amar também é permitir que o outro tenha caminho — inclusive a própria mãe.

Talvez essa seja uma das verdades menos romantizadas (e mais necessárias) para um Dia das Mães: ser mãe é lindo, sim. Mas ser mãe também é continuar sendo mulher, com desejos, silêncio, trabalho, mundo e horizontes. E isso não diminui amor nenhum.

 

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