O maior medo de todo bibliófilo ou bookaholic é morrer sem ter lido todos os livros. Por isso esse tipo de gente se cerca de uma quantidade absurda de títulos, compra mais do que consegue ler e está às voltas com contas insólitas: “se eu ler tantas páginas por hora, terei lido esse, aquele e aqueloutro romance até o fim desta semana”.
Tsundoku, li certa vez numa matéria a respeito disso. Um termo japonês que significa literalmente “pilha de livros”, e remete à mania de comprar livros em quantidades superiores à capacidade de leitura. “Confira cinco formas de conseguir terminar suas leituras”, dizia a matéria.
Olhar a literatura assim — e atire a primeira pedra quem não o faz — é vê-la a partir do que falta. É vê-la como um acúmulo, ou, então, como uma forma de sair da ignorância. A palavra erudição carrega essa força: do latim, eruditio, formada pelo radical latino ex- (fora de) e rudis (rude, ignorante), pode ser traduzida como o processo de sair da necedade, da falta de conhecimento.
Na última de várias mudanças de residência por que já passei, me dei conta — rearrumando-a — de que a minha biblioteca é um exemplo de tsundoku. Além dos inúmeros novos não lidos, quatro edições de Dom Quixote (mas uma é de bolso, porque nunca se sabe quando será necessário ir até ao dentista), seis de Grande Sertão (até porque sabemos o zelo de Guimarães Rosa com a publicação de seu texto e suas idas infindáveis até a José Olympio para verificar se não estavam cortando ou editando alguma coisa), e algumas de O velho e o mar, nas suas formas em inglês, espanhol, português e brasileiro (para dar aquela comparada, não é mesmo?). E sou surpreendido com a ausência de Moby Dick, de quem fui ter notícias recentemente. Na ida que fizemos a Minas Gerais, esqueci a história de Ismael na mesa de cabeceira. Um cano estourou no meio da noite e alagou meu antigo quarto, onde se encontrava o filho de Herman Melville. “Irrecuperável, tive que jogar fora”, minha mãe disse. Lembrei do perigo que é arremessar palavras ao vento. Talvez a culpa do alagamento tenha sido do narrador mesmo, que logo no começo clama pelo mar: “sempre que, sem querer, me vejo parado diante de agências funerárias, ou acompanhando todos os funerais que encontro; e, em especial, quando minha tristeza é tão profunda que se faz necessário um princípio moral muito forte que me impeça de sair à rua e rigorosamente arrancar os chapéus de todas as pessoas – então percebo que é hora de ir o mais rápido possível para o mar”. Pois bem, o mar veio até ele e agora terei que comprar novamente a edição da Cosac Naify.
Jorge Larrosa, pedagogo e filósofo espanhol, autor de Pedagogia Profana, aponta numa outra direção. Não para o conhecimento ou literatura que falta, mas para a que fica. Num mundo repleto de “excesso de informação”, concretizando aquilo que Walter Benjamin disse a respeito do periodismo — “grande dispositivo moderno de destruição generalizada da experiência” — Larrosa propõe a literatura como forma de experienciar a vida. “De que forma determinado livro muda minha forma de ver o mundo? De que forma determinado livro muda minha linguagem sobre o mundo? De que forma determinado livro muda minha maneira de sentir o mundo?”, pergunta em algum de seus maravilhosos textos.
A literatura assim pensada deixa de ser um acúmulo e passa a ser um afeto, ou aquilo que nos atravessa. Mais uma vez, o latim: afeto vem de affectus, particípio passado do verbo afficere, que significa fazer algo em alguém. Vindo de algo que já foi — affectus, afetado — é importante verificar o que restou da experiência.
Contemplo esta edição da Aguilar de mais de oitocentas páginas da história de Riobaldo. Procuro a esmo o momento em que ele fala, roseanamente, do que ele leva de sua mãe. É algo bem simples, curto, quase que direto e que está no meio desse amontoado de estórias a respeito do pacto com o demo, do amor e da presença da morte. “Foi assim. Eu tinha me debruçado na janela, para poder não presenciar o mundo”, diz ao ver o corpo de Diadorim, morta em batalha. Mas não é isso que procuro...
Achei. É quando ele conta da mãe dele. “De desde, até hoje em dia, a lembrança de minha mãe às vezes me exporta. Ela morreu, como a minha vida mudou para uma segunda parte. Amanheci mais. De herdado, fiquei com aquelas miserinhas – miséria quase inocente – que não podia fazer questão: lá larguei a outros o pote, a bacia, as esteiras, panela, chocolateira, uma caçarola bicuda e um alguidar; somente peguei minha rede, uma imagem de santo de pau, um caneco-de-asa pintado de flores, uma fivela grande com ornados, um cobertor de baeta e minha muda de roupa”.
A rede para descansar, o santo para rezar, a caneca para água, o cobertor para o frio e a fivela para a memória. Ou não. Mas o fato é que o que resta dá para contar nos dedos das mãos.