Comportamento Mídia e sociedade
No mesmo feed, verdade e mentira disputam atenção
No mesmo espaço, verdade e mentira competem, e o algoritmo não tá nem aí para a diferença.
28/04/2026 09h11 Atualizada há 4 meses
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
assistindo tv

Você sabe como se consumia notícia há uns 15 anos? Geralmente você acordava, tomava café, ligava a TV, abria o jornal ou entrava num site de notícias.

Você ia até a informação. Ela estava lá, num lugar previsível, com uma assinatura: era o Estadão, a Globo, a Folha, o UOL. Dava para saber quem estava falando.

Hoje a notícia vem até você. Mesmo que você não peça. Mesmo que esteja só vendo um reel de gato dançando.

Ela chega pelo WhatsApp, pelo Instagram, pelo TikTok, pelo X. Aparece no meio do seu lazer, disfarçada de entretenimento. E o problema não é a velocidade. O problema é aonde ela chega.

Porque o lugar onde a notícia agora vive, o feed, a timeline, o grupo da família, não foi feito para ela, foi feito para qualquer coisa. E quando tudo ocupa o mesmo espaço o ambiente deixa de distinguir o que é verdade do que é apenas impacto.

Dois movimentos, um mesmo espaço

De um lado, as organizações de notícias fizeram o que qualquer negócio faria: foram para onde o povo está. Migraram seus perfis, suas manchetes, suas contas verificadas. Passaram a disputar atenção no mesmo ringue que o tio do Zap, o blogueiro anônimo e o canal sensacionalista.

Do outro lado, a gente, cidadão comum, pessoa que trabalha, estuda, cuida da vida, ganhou um problema novo: nesse ringue, ninguém usa uniforme.

Não tem crachá. Não tem selo de qualidade estampado na testa. A notícia séria e o conteúdo duvidoso chegam no mesmo formato, no mesmo pacote, com a mesma tipografia.

E aí? Como diferenciar?

ilustração redes sociais

Quando o lugar desaparece, a função muda de dono

Antes, o lugar da notícia fazia parte da credibilidade dela. Não garantia verdade absoluta, mas indicava método. Tinha redação, tinha editor, tinha responsabilidade jurídica, tinha assinatura.

Quando a notícia perde o lugar, alguém precisa assumir essa função, e esse alguém é o leitor, mas o leitor não foi preparado para isso.

O cidadão médio não é robô

O brasileiro médio não tem tempo, nem ferramenta, nem paciência para ficar cruzando fonte de tudo que aparece na tela. Ele vê, sente e compartilha. Ou ignora.

Não porque seja desinformado.

Mas porque o ambiente não foi desenhado para ele fiscalizar. Foi desenhado para prender atenção. Prender atenção é o contrário de checar fato.

O resultado? A verdade e a mentira viram concorrentes no mesmo feed. A disputa não é equilibrada, porque a mentira costuma ser mais simples, mais emocional, mais interessante.

A notícia perdeu a casa dela

Antes, a notícia tinha um lugar. E um lugar diz muito: dali saía um compromisso com a verdade – ou pelo menos com um método.

Agora ela é nômade. Mora no mesmo terreno que o boato, a teoria da conspiração e a fake news com cara de produção profissional.

Organizações sérias ocuparam um espaço que não exige nada de ninguém. E, ao ocupar, legitimaram o território, sem conseguir organizá-lo.

E o leitor? Fica no meio

O leitor não tem como saber, de bate-pronto, se aquela manchete no Stories veio de um portal confiável ou de uma operação de desinformação com logo bem-feito.

Checar virou trabalho. O que antes era curadoria institucional virou tarefa doméstica.

fake news

O que acontece quando a mentira entra na cabeça

Aqui está o ponto central, e o mais ignorado. A desinformação não precisa ser verdadeira para funcionar, precisa apenas ser acreditada.

Quando isso acontece, ela vira uma verdade operante. Não uma verdade dos fatos, mas uma verdade que organiza comportamento.

As pessoas compartilham, reagem, votam, temem, defendem. Agem.

E quando muita gente age a partir disso, a sociedade muda. A realidade objetiva não muda, mas deixa de ser o que organiza a ação coletiva.

O problema não é só a circulação de mentira. É a perda de um critério comum sobre o que é real. Sem esse critério, a coordenação social fica mais difícil.

Decisões políticas, reações coletivas, percepções de risco, tudo passa a depender mais da crença do que do fato. E crença precisa de aderência, não de evidência.

A tese

As organizações de notícias ganharam alcance, mas perderam o ambiente que diferenciava método de ruído. A gente ganhou acesso, mas perdeu referência.

O resultado é uma crise silenciosa de autoridade sobre o real. Não porque os veículos deixaram de ser bons, mas porque estão jogando em um campo que não recompensa verdade, recompensa impacto.

Enquanto isso, o cidadão médio, que não é especialista, não é militante, só quer entender o mundo, fica sobrecarregado, cético ou indiferente. A desinformação vence por cansaço.

O que sobra

Não tem solução no fim deste texto, porque o problema não é falta de informação,
é excesso, e sem critério. A notícia chegou até você, e agora divide espaço com a mentira.

Mas pior: quando a mentira se instala, ela não precisa mais provar nada. Ela vira verdade para quem acredita. E a partir dela, decisões são tomadas, ações são executadas. O mundo muda.

O resto, como distinguir uma da outra, e como viver em um ambiente onde a crença pode valer mais que o fato, sobrou para você.

 

Me acompanhe nas redes: 
.Instagram: @andrelccaval 
.YouTube: @andrelc539