.Maternidade Maternidade
O gesto que segura o mundo
Entre o medo e a força, o relato de uma mãe que encontra no amor a maneira de sustentar o filho e a si mesma nos momentos mais difíceis.
22/04/2026 06h00 Atualizada há 4 meses
Por: Marina Marquez | coluna De Mãe para Mãe

“Aperta minha mão, bem forte. O mais forte que você conseguir que vai ficar tudo bem.”

Repeti essa frase várias vezes antes e depois de uma cirurgia que meu filho precisou fazer. Enquanto esperava os eternos 55 minutos ao lado do centro cirúrgico, pensei em todas as mães que já passaram — ou passam — por aquilo ali rotineiramente.

Porque esperar, para uma mãe, quase nunca é só esperar: é tentar manter a fé em pé enquanto a cabeça corre por cenários, tarefas, medos e combinações impossíveis.

Um filho no hospital, um filho doente, é um teste de fé para qualquer uma. É quando nos perguntamos “por quê?” ao mesmo tempo em que colocamos aquele sorriso falso no rosto e resolvemos todas as outras 27 coisas que envolvem algo desse tipo: as consultas pré-cirúrgicas, os remédios comprados antecipadamente, as adaptações da casa e do outro filho, jogos e distrações para o pós-operatório.

E ainda tem o bastidor invisível — o “como” de tudo isso: como iremos, quem dorme com a menor para sairmos de madrugada, o que tem de comida, quem vai levar e buscar na escola, o que vestir. Até para sofrer o tempo é escasso. É preciso se angustiar enquanto resolve o checklist eterno e equilibra os pratinhos, como se a dor também tivesse que caber numa agenda.

“Você tem certeza de que ele ainda não chegou na sala de recuperação? Eu prometi a ele que estaria o tempo todo ao lado dele, ele não pode abrir o olho e não me ver”, expliquei mais de uma vez para a enfermeira que vigiava a porta.

A gente faz umas promessas difíceis de cumprir, né? Promessas que são quase uma tentativa de negociar com o medo. Até hoje me lembro da minha mãe dizendo que o mertiolate não ia arder na esperança de um milagre, só para me confortar. Como se a palavra certa pudesse reescrever a sensação.

No dia seguinte à cirurgia, a minha missão era tirar um curativo grudado com uma gaze extraterrestre que parecia colada com super bonder. A cirurgia já tinha passado, mas a dor ainda não. Vi, pela primeira vez em cinco anos, meu filho gritar com um olhar de desespero e sofrimento que me atravessou num lugar que eu nem sabia que existia.

“Mãe, eu quero voltar ao normal. Não aguento mais sentir dor.”

“Eu sei, filho. Se eu pudesse eu tirava toda essa dor que você está sentindo e colocava ela em mim. Sentia tudo no seu lugar. Mas não posso. Então aperta bem forte minha mão para ver se ajuda um pouco”.

A gente ainda estava no pós-operatório crítico quando eu li um texto sobre mães não pularem do barco. Era uma dessas coisas que chegam no meio do caos e, por algum motivo, parecem ter sido escritas exatamente para aquele minuto.

Dizia assim: “O mundo pode estar desabando, incendiando, as paredes caindo. A mãe está lá. [...] O choro pode estar preso na garganta, o medo tomando conta, culpa, insegurança, seja lá o que estiver passando no coração materno, ainda assim ela está lá. De pé, ao lado do filho. [...] Ela está lá para abraçar, para secar as lágrimas, para dar a mão, para carregar no colo. Ela está lá”.

Eu li e pensei: é isso. Não porque a mãe seja de ferro, mas porque, na prática, alguém precisa sustentar o “vai ficar tudo bem” enquanto tudo dentro dela pede para desabar.

O bom da criança é que a recuperação é infinitamente mais rápida que a nossa. A criança volta para a vida com uma velocidade que humilha a nossa.

A mãe millenial pega uma virose e sofre pensando como o filho poderá sentir todo aquele mal-estar e sobreviver. O filho passa por isso brincando. E eu ainda vigiava o meu para não correr quando, ao sair do prédio, o portão pesado prendeu o dedo da irmã.

Ela me olhou com o mesmo olhar de desespero. Como se o mundo dissesse: ainda não acabou. E então, enquanto eu dirigia e tentava acalmá-la do banco da frente, escutei a seguinte frase: “Eu sei que está doendo, irmãzinha. Aperta forte minha mão. Se eu pudesse, eu tirava a dor de você e colocava em mim. Mas não tem como. Então aperta minha mão bem forte que vai melhorar um pouco”.

E, naquele momento, de repente, o meu “por quê” fez sentido. Não como resposta bonita para o sofrimento — mas como um desses sentidos discretos que aparecem no meio da vida real. A dor não ficou menor. Mas virou linguagem. E a linguagem tornou-se cuidado. Talvez seja isso que a gente faça, sem perceber: a gente transforma aquilo que nos atravessa no que sustenta o outro.

 

Me acompanhe nas redes: @marinammarquez / @avisacomunicacao

 

Clique aqui e adquira.