Recentemente, fomos chocados pelo caso da policial militar Gisele Alves Santana. Gisele foi morta com um tiro na cabeça dentro de seu apartamento, e seu marido, o Tenente-coronel Geraldo Neto, foi preso preventivamente sob a acusação de feminicídio e de fraude processual, por ter alterado a cena do crime na tentativa de forjar um suicídio.
As raízes desse crime brutal escancaram a face mais sombria do machismo estrutural.
Mensagens de celular revelaram que o marido exigia que ela fosse uma "fêmea beta obediente e submissa", enquanto ele se autointitulava o "macho alfa", exercendo controle psicológico, financeiro e sexual.
É exatamente aqui que reside a semente do feminicídio: se a mulher é vista como um objeto de desejo e nascida apenas para servir, torna-se muito mais fácil massacrar e punir. Na mente do agressor, objetos não são pessoas, e quebrar objetos não traz consequências graves ou dilemas morais.
“Lugar de mulher é em casa, cuidando do marido. E não na rua, caçando assunto. Rua é lugar de mulher solteira à procura de macho” (TC Geraldo Neto)
Essa objetificação não nasce no vácuo. Ela é amplamente alimentada nas redes sociais por ideologias de ódio, como o chamado movimento "Red Pill" e a "machosfera”.
Esses grupos virtuais fomentam a misoginia ao pregar que os homens devem dominar as mulheres, tratando-as como seres inferiores ("femoids") ou meros depósitos para o prazer masculino. Tais atrocidades alimentam as redes sociais com um discurso de supremacia masculina que radicaliza jovens e fomenta ainda mais violência.
Na internet, é lamentavelmente comum encontrar homens que ridicularizam mulheres, propagando falas machistas que, em vez de serem condenadas, recebem aplausos de comentários ainda mais misóginos, alimentando um ciclo de ódio e desumanização.
Vemos jogadores de futebol criticando arbitragens femininas não pelo desempenho, mas pelo simples fato de serem mulheres, como se o gênero definisse competência, e tais declarações ganham apoio de uma plateia que reforça estereótipos.
Há também quem defenda estupros coletivos, culpabilizando a vítima por estar em determinado local, sugerindo que ela “merecia” a violência, numa inversão perversa de responsabilidade.
E, em casos extremos, homens que matam os próprios filhos em nome de uma suposta “defesa da honra” diante de acusações infundadas de traição são quase ovacionados por uma sociedade que romantiza a violência masculina.
Tudo isso reflete uma cultura que, de diversas formas, justifica massacrar mulheres, seja por palavras, atitudes ou atos brutais, perpetuando a ideia de que elas são alvos legítimos de desprezo e agressão.
No meio desse cenário de atrocidades masculinas, precisamos lançar luz sobre as vítimas invisíveis: as crianças órfãs do feminicídio.
São crianças e adolescentes esquecidos pelo Estado e pela sociedade, que carregam o impacto emocional de vários lutos simultâneos. Eles enfrentam a morte da mãe, a "morte" do pai (que se torna o assassino encarcerado) e, tragicamente, a morte da própria infância.
Meninos e meninas que crescem em lares violentos tendem a reproduzir ou aceitar essas agressões no futuro se não houver intervenção, perpetuando o ciclo.
Diante dessa barbárie, precisamos de leis que tragam consequências e punições severas, como o recente pacote antifeminicídio que prevê penas de até 40 anos de prisão, e os projetos de lei no Congresso que visam criminalizar grupos misóginos na internet.
Mas a lei, por si só, atua na consequência. É preciso atuar na raiz.
Como Doutora em Educação, afirmo que a sala de aula é a nossa principal trincheira. Precisamos educar para a não violência e alertar desde cedo para as questões de misoginia e intolerância. A escola deve ser o espaço para desconstruir a ideia de que a violência é um problema privado ou que "em briga de marido e mulher não se mete a colher".
Mais do que isso: precisamos alertar, debater e formar homens que não apenas critiquem os atos de outros homens, mas que, principalmente, sejam defensores ativos das mulheres.
Meninos precisam ser ensinados sobre masculinidades saudáveis, rompendo com a necessidade de controle e dominação. A mudança exige uma corrente de apoio e respeito mútuo.
Somente por meio da união entre leis rigorosas e uma educação emancipatória conseguiremos proteger a vida das mulheres, resgatar a infância de nossas crianças e construir uma sociedade onde o respeito seja a única regra aceitável.
Já parou para pensar como você pode contribuir com esse processo educativo?
Esse é um convite! Vamos fazer a nossa parte!
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