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Ainda precisamos do 8 de março
Dia Internacional da Mulher: celebração convive com uma realidade marcada por medo, desigualdade e violência.
08/03/2026 11h26 Atualizada há 5 meses
Por: Alessandra Moulin | coluna Sala de Aula

Hoje é 8 de março: você acorda, pega o celular, e antes mesmo do café da manhã já tem mensagem: “Feliz Dia da Mulher”.

Vem junto uma figurinha com flor, coração e uma frase pronta sobre delicadeza, força e não sei mais o quê.

Em algumas empresas, na segunda-feira, vão distribuir rosas, brindes, talvez um bombom. E, por alguns instantes, dá até um certo calorzinho no peito: é bom ser lembrada, é bom ser cuidada, é bom ser amada.

O medo que acompanha a rotina

o medo da rotina

Mas aí você lembra de ontem à noite. Lembra de quando pensou duas vezes antes de voltar sozinha pra casa. 

Do trajeto calculado mentalmente: rua mais iluminada, fone no ouvido mas sem música, chave entre os dedos, localização compartilhada com alguém.

Lembra da sensação estranha de que o simples fato de existir, ocupando um corpo de mulher, já é um risco estatístico.

Enquanto recebe flores, você pensa que ainda vive em um país em que o número de feminicídios cresce. Em que as manchetes ainda começam com: “Ela foi morta porque…”. E o “porque” nunca é responsabilidade de quem apertou o gatilho, desferiu o golpe, apertou o pescoço. O “porque” cai, quase sempre, sobre ela: “porque traiu”, “porque terminou”, “porque quis ir embora”, “porque não obedeceu”.

Ainda é o mundo em que se ouve: “Mas olha a roupa que ela estava usando”. 

Como se um vestido curto fosse uma espécie de convite impresso. 

Como se um decote justificasse a violência. 

Como se o corpo de uma mulher fosse um aviso em letras miúdas: “use por sua conta e risco”.

Ainda é o mundo em que, mesmo quando somos vítimas, alguém procura um jeito de nos transformar em culpadas. 

Você foi assediada? “Mas também, você deu confiança.” 

Você sofreu violência? “Mas você tem certeza que não provocou?” 

Você não quis? “Mas você não disse ‘não’ com todas as letras.”

Entre um “Feliz Dia da Mulher” e outro, a realidade insiste em ser menos poética. Porque também ainda é o mundo em que, para o mesmo trabalho, o salário vem menor. 

Em que as perguntas nas entrevistas de emprego são: “Você pretende engravidar?” 

Em que, no almoço de família, alguém solta: “Mas ela não sabe cozinhar?” — como se a cozinha tivesse gênero, como se o fogão fosse herança genética.

É bonito receber flores, claro que é. 

É gostoso ganhar um mimo, uma mensagem carinhosa, um reconhecimento.  Não se trata de rejeitar o gesto. Trata-se de perguntar: e nos outros 364 dias?

Nos outros 364 dias, quem anda com medo somos nós. Quem ganha menos somos nós. Quem morre por ser mulher somos nós. Quem é julgada pela roupa, pelo corpo, pela escolha de ter ou não filhos, somos nós.

Se precisamos do dia 8 de março é porque ainda não chegamos lá. 

Porque igualdade não é um texto emocionado no Instagram. Não é um brinde na empresa, uma rosa na recepção, um desconto especial no salão de beleza.

Igualdade é não precisar mais explicar, justificar, implorar para ser levada a sério.

É não estar constantemente na defensiva, como se viver fosse um ato de autodefesa permanente.

Um dia que ainda é alerta

Talvez um dia o 8 de março possa ser só celebração.  Um brinde ao que já foi conquistado, sem o peso de tudo que ainda falta.  Mas, hoje, ele ainda é alerta.  Ele ainda é denúncia.  Ele ainda é espelho.

Um espelho que reflete frases que precisamos ter coragem de aposentar: 

“Mas olha a roupa que ela estava usando.” 

“Ele matou porque ela o traiu.” 

“Mas ela não sabe cozinhar?” 

“É coisa de mulher histérica.” 

E que ilumina outras que precisamos repetir até que percam o escândalo e virem óbvio: 

“Ela tem o direito de ir e vir sem medo.” 

“Ela não é culpada pela violência que sofreu.” 

“Ela merece ganhar o mesmo por fazer o mesmo.” 

“Ela não tem que caber em nenhum molde.”

Sejamos honestos com o significado deste dia.  Que ele não seja só mais uma data para vender flores, bombons e promoções temáticas.

Que ele seja incômodo. Que ele provoque conversa, reflexão, mudança. Que ele faça muita gente se perguntar: “O que eu faço, de verdade, para que essa desigualdade diminua?”

Porque amar mulheres é fácil no dia 8 de março.  Difícil é respeitar, ouvir, dividir os espaços, os salários, as tarefas, o poder, o medo — e, principalmente, tirá-las da posição constante de suspeita.

Não basta celebrar, é preciso dizer basta

Enquanto precisarmos do 8 de março como lembrete de que mulheres seguem morrendo, sofrendo, ganhando menos e sendo culpadas por aquilo que sofrem, é sinal de que não chegamos lá.  E, justamente por isso, não basta dizer “parabéns”. 

É preciso dizer “basta”.

Que esse texto possa incomodar a ponto de fazer refletir sobre o verdadeiro significado desse dia!

Dedico às mulheres que contribuíram para minha jornada: mães, tias, irmãs,  cunhadas, professoras, amigas, primas, psicólogas, entre tantas outras.

Mulheres, continuem!

 

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