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Quando o tabu vira receita: incesto, capitalismo e economia do desejo sexual
O anúncio da influenciadora de transformar a relação com o próprio filho em conteúdo pago reacende o debate sobre os limites entre mercado, família e desejo.
25/02/2026 06h00 Atualizada há 7 meses
Por: André Cavalcanti | coluna Subjetividade e Poder
influenciadora Andressa Urach

A influenciadora Andressa Urach anunciou a intenção de produzir conteúdo adulto para plataformas digitais mantendo relações sexuais com o próprio filho, com finalidade de monetização.

É preciso dizer isso com clareza.

Não estamos falando apenas de “conteúdo adulto”. Estamos falando da transformação de uma relação materno-filial em produto pago.

Diante disso, a sociedade oscila entre choque moral, curiosidade e silêncio constrangido. Nenhuma dessas respostas é suficiente.

O tema exige análise séria, histórica e estrutural. Não para censurar, nem para espetacularizar. Mas para compreender o que está em jogo quando um tabu fundante da cultura passa a integrar a lógica de mercado.

O tabu do incesto como fundamento cultural

O antropólogo Claude Lévi-Strauss, em As Estruturas Elementares do Parentesco, mostrou que a proibição do incesto não é um detalhe moral ou religioso. Ela é uma das bases da organização social.

Ao impedir relações sexuais dentro do núcleo familiar imediato, as sociedades obrigam a formação de alianças externas.

Essa regra força a troca entre grupos, cria redes de parentesco e cooperação e inaugura a circulação simbólica. É nesse movimento que a humanidade passa da pura reprodução biológica para a cultura.

A interdição do incesto marca a passagem da natureza para a cultura.

Ela delimita lugares: mãe não é parceira sexual, filho não é objeto erótico. Esses lugares organizam identidade, autoridade, cuidado e diferenciação. São fronteiras que sustentam a confiança básica nas relações familiares.

Quando essa fronteira é atravessada e convertida em espetáculo pago, o que se tensiona não é apenas uma norma moral. É uma estrutura simbólica fundamental.

Freud e a função da lei

A psicanálise também reconhece essa centralidade. Em Totem e Tabu, Freud argumenta que a interdição do incesto é constitutiva da formação psíquica do sujeito.

A criança vive desejos ambivalentes em relação às figuras parentais. Mas é a presença da lei — da proibição — que organiza esses impulsos e permite a entrada no mundo social. A lei não é apenas repressão. Ela estrutura o desejo.

Sem limite, o desejo não se simboliza. Ele não encontra mediação. A interdição permite que o sujeito saia da relação exclusiva com os pais e construa vínculos fora da família.

Quando o tabu fundador é transformado em conteúdo erótico monetizado, há uma alteração profunda nas engrenagens simbólicas que organizam identidade e laço social.

Capitalismo e sacrifício

capitalismo sexual

No capitalismo, toda receita implica sacrifício.

Trabalha-se, investe-se, assume-se risco, renuncia-se a tempo e energia para gerar renda. A economia sempre operou por meio de trocas que envolvem esforço ou exposição.

Na economia do desejo sexual, a natureza do sacrifício pode ser diferente.

Quando uma relação familiar é erotizada e convertida em assinatura mensal, o sacrifício deixa de ser apenas físico ou financeiro. Ele se torna psicológico e estruturante.

O que está sendo colocado em jogo não é só imagem pública. São fronteiras simbólicas internas, identidade, memória afetiva, diferenciação de papéis. Esses custos não aparecem em planilhas, mas podem ser muito maiores do que o ganho financeiro imediato.

O mercado remunera a transgressão. Mas não absorve o impacto psíquico.

A demanda não é linear: o problema da escalada

Na economia da atenção, e especialmente na economia do desejo sexual, a demanda não é linear.

O que hoje é novo rapidamente vira comum.
O que hoje é ousado amanhã perde impacto.
O que hoje é chocante amanhã é banal.

Para manter assinantes, é preciso renovar o impacto. A lógica da assinatura cria pressão por intensidade crescente. O diferencial competitivo tende a ser o inusitado, o radical, o extremo.

Nesse ambiente, o tabu pode virar ativo econômico.

Mas surge uma pergunta inevitável: onde isso termina? Quais outros limites estruturantes poderão ser tensionados quando a transgressão se torna estratégia de retenção de público?

Quando o mercado premia o extremo, ele incentiva a escalada. E a escalada não possui ponto natural de parada. O limite passa a ser apenas o risco jurídico ou a perda de monetização.

Consentimento e complexidade

Argumenta-se que, sendo adultos e havendo consentimento, a questão estaria encerrada. Mas consentimento formal não elimina a complexidade estrutural.

Relações familiares carregam história compartilhada, hierarquia afetiva, memória infantil, papéis internalizados desde a formação da identidade. Não são relações simétricas comuns.

Transformar esse vínculo em produto pago altera sua natureza simbólica.

Além disso, a exposição digital é permanente. O registro não desaparece. A marca pública permanece associada à identidade de ambos.

O sacrifício psicológico pode ser silencioso, tardio e profundo.

reprodução: pintura de René Magritte

E quando o tabu vira produto?

Quando um tabu estruturante é convertido em assinatura mensal, o efeito não é apenas individual.

A cultura não é sustentada apenas por leis escritas, mas por limites simbólicos compartilhados. Alguns desses limites organizam papéis, protegem vínculos e estruturam a confiança social. A proibição do incesto é um deles.

Quando o mercado descobre que o tabu vende, duas forças passam a operar simultaneamente.

A primeira é a da escalada. Na economia da atenção, a demanda não é linear. O que hoje choca amanhã se banaliza. Para manter receita, é preciso dar um passo além. Sempre um pouco mais radical. Sempre um pouco mais ousado.

A pergunta inevitável já fizemos: onde isso pode chegar? Quais limites e tabus estruturantes podem ser rompidos em nome da retenção de audiência? Qual o risco disso para a coesão social?

A segunda força é a reação moralizante. Quando a sociedade percebe que fundamentos simbólicos estão sendo tensionados pelo mercado, surge a tentação da proibição ampla, da censura e do endurecimento punitivo. O debate qualificado dá lugar ao interdito.

E aqui está o risco maior.

Se tudo vira produto, a cultura se fragiliza.
Se tudo vira proibição, a liberdade se fragiliza.

A tarefa pública não é escolher entre mercado absoluto ou censura absoluta. É reconhecer que nem todo limite é apenas moral. Alguns são estruturantes.

Quando o tabu vira mercadoria, não é apenas a intimidade que está sendo comercializada. É a própria arquitetura simbólica que sustenta a cultura. E mexer nessa arquitetura nunca é neutro.

 

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