.Feminino Preta Comportamento
Em terra de “conquiste tudo”, eu serei a desistência
Sobre ir no seu próprio ritmo. Sobre desistir de correr corridas que não são suas, ou que te fazem se perder de quem você é
26/02/2026 06h00 Atualizada há 6 meses
Por: Gabrielle Vieira | coluna Feminino Preto
Gabrielle Vieira - colunista Lead (foto: Gi Vieira)

Agora, oficialmente, o ano começou. Não é assim que dizem por aí? E como estão as coisas aí desse lado? Eu espero que bem.

Por aqui, 2026 já começou há alguns dias.

Na verdade, a sensação que eu tenho é que apenas tivemos uma mudança no calendário, fizemos uma festa para celebrar e voltamos às nossas loucuras diárias.

Você fez muitas listas? Listas de metas? Listas de conquistas para 2026?

Quais sentimentos passaram por você? O que te emocionou ou te fez pensar na vida? Você fez muitos planos?

Se cobrou para ser perfeita em 2026, mesmo estando cansada? Começou o ano tentando organizar sonhos, metas e novos hábitos, mas, no fundo, só queria férias em janeiro e sua cabeça não te deixava descansar?

Como pensar em um novo ano, novas metas e algo novo, se nossas mentes estão exaustas?

Aí você vai me dizer: “Lá vem ela com esse papo de cansaço de novo! Essa moça só vive cansada.”

E eu te pergunto: por que estamos tão cansadas?

Eu acredito em vários fatores. Mas para começar, um estudo da Associação Internacional de Manejo do Estresse mostrou que as pessoas ficam mais estressadas no final do ano.

fonte: Associação Internacional de Manejo do Estresse

 

As inúmeras situações que surgem em dezembro, como se você tivesse apenas aquele mês para terminar tudo e se tornar uma grande vencedora.

No final de 2025, ou já no segundo dia de 2026, você foi bombardeada por estímulos digitais?

“Saiba como alcançar suas metas em 2026.”

“Hoje é 19 de janeiro e, se você ainda não organizou seu ano, comprou um carro, uma casa, casou e não correu uma meia maratona, você pode estar atrasada. Veja dicas para destravar.”

No décimo nono dia do ano!

Por favor, me ajuda a entender: só eu tive esses pensamentos?

coluna Feminino Preto - Lead Notícia (foto: Gi Vieira)

O seu tempo é o tempo correto

Para um ano que “só começa depois do Carnaval”, eu já estava me sentindo pressionada, rs. Por isso, fui obrigada a escrever só depois do Carnaval. Brincadeira! Eu também senti sua falta.

Tive um bloqueio criativo. Acredito que seja cansaço. Cobrança e exaustão mental por ver tantos textos e postagens nessa mesma linha.

E, meu querido leitor, eu não quero te desestimular, te desanimar ou te paralisar. Muito pelo contrário: eu quero te ver voar. Eu poderia dizer “conquistar”, mas gosto mais da ideia de voar. Voar é liberdade.

É ser livre nas suas escolhas, sem se prender às escolhas dos outros ou às escolhas que “todo mundo” faz.

Se você vai ser feliz em 2026 correndo, fazendo listas, se aventurando, estudando, trabalhando, amando, se amando, se descobrindo — ou, assim como eu, preferiu desacelerar — faça com a convicção de que é o que você precisa neste momento. Você não está atrasada.

E preciso usar uma frase meio coach aqui: você nunca está atrasada para a sua própria vida.

“Não estamos atrasadas na vida, a gente só não recebeu tudo de mão beijada.” (Camila Pimenta)

Só você sabe o quanto caminhou para chegar até aqui. As dificuldades de ser quem você é — e, mesmo assim, continuar. De onde saiu e o que deixou para trás.

Respire fundo. Reconheça isso. Celebre — mesmo que você ache que é pouco.

Verdadeira Virada

A virada não acontece só em janeiro. Ela acontece quando a gente decide ir no nosso tempo. Em cada pequena conquista diária. No desejo de buscar algo novo.

Eu desejo que você tenha esse desejo: de algo novo, de viver, de continuar.

Coloque uma meta de cada vez. Caminhe em direção a ela. Escolha uma coisa e finalize. E, se não der, ainda há muitos meses pela frente.

Desista

Depois de te incentivar a ir no seu tempo, eu também quero te encorajar, neste começo de ano, a desistir de fazer tudo ao mesmo tempo.

Eu sei que estou dizendo isso para muitas pessoas negras que, para correr uma corrida de 5 km, precisam fazer isso num pace 8 ou 10. Fiz até uma “pesquisa de campo” para falar sobre isso, porque eu mesma não corro nada (risos).

Segundo corredores à minha volta, esse ritmo é considerado lento. Mas, às vezes, esse é o ritmo que você pode — e que a vida permite — neste momento.

Porque muitas vezes você corre carregando nas costas:

– o curso de inglês que quer fazer, mas precisa ajudar em casa;
– a promoção que precisa conquistar, enquanto promovem alguém mais clara do que você e com cabelos “ajeitados”;
– cobranças, autocobranças, racismo, preconceitos;
– o peso de ser a primeira;
– o peso de representar muitas.

Eu sei que todo mundo está dizendo “não pare”. Mas eu escolhi desistir hoje. Amanhã eu escolho uma luta e vou.

Desistir de aguentar tudo. Desistir de letrar as pessoas racialmente o tempo inteiro. Desistir de querer que tudo seja perfeito e do meu jeito.

Porque, quando se cresce acreditando que precisa ser perfeita para ser aceita — já que a sua cor de pele não te garante afeto automático — o que você ganha na vida adulta é a tentativa de controlar tudo.

Aprendi, às duras penas, que a vida está acontecendo como ela é. E eu não controlo nada.

Mas não desista de você.

Desista um dia para conseguir prosseguir no outro. Parece contraditório, mas é o respiro.

Vá no seu tempo. Dê a si mesma uma segunda chance. Dê-se a permissão de ser lenta, improdutiva, de fazer algo que goste no meio de um dia, de uma semana ou de um mês dedicado ao trabalho e a ser uma “Black Girl Boss”.

Pego emprestadas as palavras da pesquisadora e professora Camila Pimenta:

Minha nega, escuta isso com carinho: você não está atrasada. A vida não é uma corrida justa. Algumas largam com apoio, estrutura, incentivo e portas abertas. Outras largam com medo, responsabilidade nas costas e a necessidade de aprender a ser forte antes mesmo de serem cuidadas.

Gabrielle Vieira - colunista Lead (foto: Gi Vieira)

Se você precisou trabalhar enquanto estudava, se teve que amadurecer cedo, se ouviu mais ‘não’ do que ‘sim’, se teve que provar o dobro para conquistar metade… isso não é atraso. Isso é trajetória.

A gente só não recebeu tudo de mão beijada.
A gente construiu. Aprendeu. Resistiu. Recomeçou.

Cada passo seu carrega história. Carrega ancestralidade. Carrega superação silenciosa que ninguém viu, mas você sabe.

Então não se compare com quem começou em outra linha de largada. Honre o seu tempo. O seu processo é legítimo. A sua caminhada tem valor.

De irmã para irmã: você não está atrasada. Você está florescendo no tempo possível — e isso já é vitória.”

Vamos caminhar no nosso tempo, e juntas, em 2026.

Beijo, gata!

 

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.Crédito das fotos: Gi Vieira