Hollywood não vive apenas uma crise criativa, vive, sobretudo, uma crise de coragem. Falta-lhe disposição para ir além de soluções fáceis, que entregam ao espectador uma emoção imediata, intensa por alguns minutos, mas rapidamente esvaziada de permanência.
“Hamnet” e “Hamlet” eram, de fato, o mesmo nome, usados de forma intercambiável nos registros de Stratford no final do século XVI e início do século XVII.
Essa informação surge antes de qualquer ação do filme e funciona como um aviso ao público.
Não se trata de uma biografia convencional, mas de uma obra que mistura vida e criação artística. Sabemos pouco sobre a intimidade de William Shakespeare, um dos artistas mais celebrados da história, e é justamente nesse território de lacunas que o filme decide habitar.
A narrativa se constrói principalmente a partir do ponto de vista de Agnes, interpretada por Jessie Buckley. É por ela que entramos nesse universo. Sua relação com a natureza, sua ligação com o que é invisível e não domesticado, e sua presença quase mística moldam a atmosfera do filme.
A escolha do nome Agnes, mantida pela diretora Chloe Zhao a partir de registros históricos, já indica o interesse em trabalhar mais com vestígios do que com certezas.
Baseado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, que também assina o roteiro ao lado de Zhao, o filme tenta preencher os vazios da vida do dramaturgo criando conexões entre acontecimentos pessoais e elementos de suas obras.
O problema é que esse jogo de referências, em muitos momentos, soa excessivamente calculado. As citações a “Hamlet”, “Macbeth” ou ao célebre “ser ou não ser” aparecem como piscadelas insistentes ao espectador, mais preocupadas em serem reconhecidas do que em surgirem de forma orgânica.
O que poderia ser sugestivo acaba, por vezes, artificial, lembrando a lógica de easter-eggs de grandes franquias, ainda que isso possa agradar a um público mais entusiasta da obra do Bardo.
Ainda assim, a construção inicial é potente. Chloe Zhao cria imagens de forte carga simbólica, como o nascimento de Susanna em meio à floresta, em uma cena quase onírica que sugere desde cedo a convivência entre vida e morte.
A sensação de presságio atravessa o filme. Agnes verbaliza seus medos, antecipa perdas, e o espectador, ciente do destino de Hamnet, assiste a tudo com uma angústia silenciosa que o filme sabe explorar muito bem até certo ponto.
Quando Shakespeare parte para Londres em busca de expansão artística, o afastamento da família revela um patriarcado que, embora situado no século XVI, dialoga com dinâmicas muito contemporâneas . Agnes permanece, sustenta a casa, cria os filhos e enfrenta sozinha as ameaças que se acumulam.
O nascimento dos gêmeos Judith e Hamnet, já fora da floresta, marca uma mudança de eixo emocional e simbólico.
A chegada da peste bubônica conduz a narrativa ao seu momento mais devastador. A morte de Hamnet é encenada de forma brutal, sem alívio, e Jessie Buckley entrega aqui a atuação mais dilacerante do filme. O desespero é físico, animalesco, impossível de ignorar. É o ponto mais honesto da obra.
E é justamente a partir daí que o filme começa a recuar.
Chloe Zhao afirma em entrevistas que seu objetivo era retratar a dor do luto, mas o filme parece incapaz de sustentar essa dor até o fim. Após a perda, os personagens são progressivamente afastados de sua própria experiência emocional.
O luto, que deveria contaminar tudo, passa a ser organizado, explicado, conduzido a um lugar de sentido. Jessie Buckley perde espaço, Paul Mescal perde intensidade, e ambos são empurrados para um desfecho que serve mais à mitologia da obra “Hamlet” do que à experiência da perda em si.
O ato final evidencia uma falta de coragem recorrente no cinema de estúdio. Em vez de permanecer no desconforto, o filme opta pela conciliação simbólica. Shakespeare elabora sua dor através da arte, o que é coerente com sua figura histórica.
Agnes, por outro lado, é reduzida a uma explosão emocional quase didática, gritando ao público aquilo que o filme parece temer deixar em silêncio. A cena transforma a dor em explicação, como se fosse necessário traduzir cada gesto para um espectador já anestesiado.
A escolha musical de Max Richter, com “On the Nature of Daylight”, reforça essa sensação de atalho emocional. Uma música já exaustivamente utilizada para provocar lágrimas reaparece como um recurso seguro, previsível, confortável demais para um filme que parecia disposto a arriscar.
O que mais incomoda não é o que Hamnet diz, mas o que ele evita dizer. O filme se aproxima do abismo, olha para ele com atenção, mas recua no último passo. A dor que não deveria ensinar nada acaba ensinando demais. A perda que não deveria fechar nada acaba fechando.
Talvez a verdadeira pergunta que o filme deixa, ainda que involuntariamente, seja esta: até que ponto o cinema contemporâneo consegue lidar com a ideia de que algumas dores não se transformam em arte, não se resolvem em sentido e não oferecem nenhum consolo ao final?
Talvez a tragédia maior não seja a morte de Hamnet, mas a incapacidade de permanecer com ela até o último plano.
Siga @leadnotícia